Eles discordarão de mim

Nota: E o título dessa vez não é só um título. 'Talvez' seja a moral e todo o resumo da crônica. Obrigada!


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                A moça de cabelos descortinados dorme pouco. Amanhece durante, o dia todo, a sua forma bruta de viver. Ela fala muito, enquanto escreve sobre viagens multiuniversais, com uma faca de doze gumes na mão. Na mão? Doze? É que ela ensina – e muito bem – sobre o céu, mas ela não é uma professora. A moça ensina sobre o céu como um padre ensina sobre o inferno.
                Não! Ela não é uma mulher ruim. Existem pessoas mais afogadas que ela, sob colunas d’água mais profundas. Nem podemos julgá-la, já que não se trata de um estado. Ela é e sempre se renova quando o sol completa seu giro. Ela é... grossa.
                Grossa como a letra de uma jovem insegura que, apesar de possuir uma caligrafia limpa e redonda, consegue rasgar o papel, marcar as páginas e imprimir duplicidade. Mas repito: ela escreve. É, ela escreve...
                Não obstante, não é preciso ter pena da moça! As penas, ela usa para cobrir os seios, sempre mais do mesmo. Ela cobre, sobe no palco, sob a fortuna, sobre as pessoas e ensina. O palco é dela, então por que a pena? Ela tem plateia. Inclusive, uma alíquota dessa plateia é tão doce, sem armas e arcos, que somente ri – ri das grosserias. Algumas grosserias passam por anedotas. Outras somente passam. E parte dessa plateia somente assiste, aplaude e idolatra como uma plateia deve fazer. De vez em quando, aparece um moço revoltado, mas a moça tem diploma daquilo que diz, ela sabe, ei!, ela SABE. Mas é grossa.
                E o fim é que ela sempre permanecerá assim. Regime permanente. Ela sabe ou descobriu enquanto nascia que a grosseria tem o seu legado. As pessoas gostam de pontos de exclamações em finais de frases dúbias e engraçadas. As pessoas gostam de tragicomédias, daquela catarse, da humilhação alheia e do ensinamento autoritário. As pessoas, vou repetir novamente, gostam de nomear coisas e de arranjar deuses, mesmo aqueles que acreditam que não acreditam em nada.
                Sim, Homeros e Helenas derrotam monstros todos os dias, navegam seguindo estrelas altivas todas as noites e até calculam o volume dos oceanos com os dedos das mãos, mas desconhecem a porção de terra firme para a qual direcionam sua fé.

Alline Corrêa Frazão – 10/10/16 – 11h46min.                                        

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