Lábios escritores

Nota: Essa crônica foi escrita pela manhã enquanto eu bebia um café bem amargo e ruim de uma padaria próxima ao meu local de destino. Eu havia chegado cedo demais. Meu local de destino estava fechado. Então, de alguma forma, aquele café amargo e ruim, me inspirou esse texto também amargo e ruim. É provável que eu não possua as mesmas convicções que tive no momento que o escrevia, é possível que eu não seja mais ele - não em totalidade - mas, no mínimo, eu fui ou tenho sido. Ou melhor, tenho sentido. Obrigada!



                Quão escura está a minha alma, nos trâmites de mim mesma, em contraste com meu coração obsoleto? Quão velha é essa escuridão no arco da tangente que toca meus anos? Quão fechados estão meus lábios, se há muito, só procuro aquela paz – a mesma paz que os pássaros encontram quando voltam para casa, ou a mesma paz que os filhotes abraçam quando fogem de seus ninhos – oh, quão fechados estão?
                Quando o final está muito distante e os pés muito cansados, o corpo deve repousar sem pressa. O corpo, essa via crucis, deve padecer em seu descanso, enquanto a alma se esquenta com os raios solares do sossego. Quando o corpo está sozinho, ele deve descansar sob a sombra de uma árvore confiável – e deve torcer para que a sombra da árvore não penumbre o resquício de esperança que houver entalado na alma.
                E a esperança, essa maldita amiga, deve ser levada no bolso como um veneno violento, mas essencial. Um veneno que deve ser tomado por inteiro quando o caminho-distante não tiver nenhum pássaro, que em alento, cante em paz. A felicidade? O que é a felicidade se não uma ilusão de almas escuras? Os meus anos que tocam a velha escuridão dessa alma, apesar de pouco reconhecer o que se escreve, atesta que em tempos de cólera, a paz é mais vital que a felicidade. Apesar de haver corações que são felizes em seu desassossego, minha paz não existe nesse prantear. Prefiro beber veneno.
                E o que fazem os lábios fechados que estampam sua seriedade fulgurada para a paz? Os lábios escrevem. Tanto escrevem que criam calos na língua, depressão nos dentes. Os lábios que escrevem encontram a paz nesse silêncio remediado e constante do não falar escrito. E meus lábios fazem isso agora e, quem sabe, eu me sinta em paz.
                Meus pássaros voltam para casa. Meu corpo repousa no campo. Minha alma clareia. Talvez sejam tantos pontos e frases curtas que eu me sinta menos embevecida em veneno. Inverossimilmente, decerto eu tenha encontrado um pouco de felicidade. E para almas que se clareiam quando lábios mudos escrevem, a felicidade é sinônimo gradual e crucificado de uma paz vívida, mas mortal. E, quiçá, o caminho-distante não fica tão pesado assim.

Alline Corrêa Frazão – Primeiro semestre de 2016.

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