À Benção

Nota: Meu amigo Matheus Castilho precisava escrever. Ou será que nós é que precisávamos lê-lo?

O Nascimento de Vênus de Sandro Botticelli.

Tocou as águas turmalinas do oceano o sêmen de um deus. 
Quisera eu que este creme fosse de Chronos;
Talvez o fosse, já que agonia e sangue desviaram-se
à (T)erra.
Imediatamente e irascivelmente
Uma estrutura âmbar materializou-se.
- Oh, deve ser uma beleza! Disseram as ninfas.
Regozijaram-se em cânticos de boas novas. Várias bençãos costuraram àquele casulo.
Mas já era tempo de nascer. Já era tempo de os olhos se abrirem.
O que fazer se a concha não se quebrou sozinha?
Eu não sou Boticelli ou Da Vinci.

Rachaduras apareciam anunciando a luz.
A nova vida gritava, porque não conseguia sair.
E nasceu. Nasceu uma fada divina.
Perfeitas madeixas enrolaram-se em crina.
Só que ao romper o rebento, rebentaram-lhe as asas.
De que serve uma fada que não voa?
As ninfas indagaram furiosas.

As bênçãos tornaram-se asco:
- Nunca há de voar
- Nunca há de falar, os sons não a querem
- Nunca há de estudar
- Nunca há de sentir o cheiro dos lírios-do-campo
Ou ver as cores do outono;
Nunca há de se casar
E do seu ventre não sairão frutos.
E o presente final e mais importante:
Nunca há de (a)MAR!

E desde então, estou só com minha cria.
Tento todos os dias protegê-la do mundo que a rotula.
Não temos um clã, não pertencemos a nada.
Talvez façamos parte de uma pintura de Sabina.
Meu anjo encontra conforto nas sobrancelhas de Khalo
Preciso escrever e as palavras me foram roubadas
Mas não se preocupe, Monte Olimpo
Não lancem mão de suas simpatias, queridas ninfas
Pois se há algo que minha cria aprendeu desde quando esquerdaram-lhe a alma,
É que eu JAMAIS me calo...
Nos meus cascos.

Matheus Castilho Corrêa - 08/08/2016 - 00h46min

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