Ode à lembrança

Nota: Sobre o motivo do meu sumiço. E isso é o máximo que posso falar ou o máximo que consigo. É o que eu tinha para dizer. Obrigada!



                O teto branco era o meu apogeu. Com as mãos ocupadas com as agulhas, era no teto branco e imaculado que eu conseguia escrever. Escrevia tanto de dia, quanto de noite. Escrevia porque sentia falta do Sol, das árvores secas e das pessoas apressadas que tropeçavam em mim. Sentia saudade das pessoas que amava, dos latidos dos meus cães, dos meus livros e da minha calculadora velha. Eu sentia falta de mim.
                Eu sentia meu corpo se afundando no mar profundo daquela maca. A maca era azul, rasa, infindável em sua dureza. Mas eu me afogava. Era muito líquido me inundando, me enchendo, aos poucos, como uma pia se enche com o pingar de uma torneira estragada. E como pia que se abarrota de água e começa a molhar o chão, eu também molhava. Molhava os olhos da minha família, das enfermeiras, dos amigos. Mas não molhava os meus.
                Até que me contaram sobre o que fariam com os caroços da melancia. Então, eu verti todo o líquido que colocaram em minhas veias em apenas uma lágrima. Eles iam cortar a melancia com a faca, iam parti-la como se parte uma fruta estragada, tirando todas as sementes, jogando fora o resto. Eu sabia que depois de tudo, eles me dariam as sementes. Cabia a mim, somente a mim, o plantio ou o cortar.
                Depois, enquanto eu não tinha tempo para escolhas, não tinha tempo pra vida nem pra morte, quando não tinha tempo para perder, eles me levaram para a grande e fria sala. A sala era muito iluminada, muito branca. Ela escurecia meus olhos, ofuscava minhas pupilas. Então, eles prenderam meus braços e arrebentaram uma veia, me impedindo de fugir. Como se fugir fosse coisa que faria. Como se eu conseguisse fazer qualquer coisa.
                Dormi. Dormi como há semanas eu não conseguia. Dormi demais, mas de uma forma que eu não buscava. Apesar da dor, eu preferia senti-la, preferia vê-la, ao invés de me apagar entre as páginas já escritas e as páginas vazias. Mas como dormi, também acordei, arrancando os tubos que me sufocavam. Era outro teto, mas o mesmo teto branco. Era uma melancia sem caroços, mas uma melancia. Era uma pia, mas vazia. Era eu, mas também não era.
                E quando, finalmente, consegui chegar em casa, me deram muitos dias para por os móveis no lugar. Mais dias do que qualquer minuto livre que eu já tive. E surpreendentemente, esses dias foram poucos. Menores que qualquer dia que eu já tenha tido. Eu não reclamei. Não tenho mais esse direito. Apenas olhei para o céu azul e quente e agradeci. Quando vi tudo o que me faltava novamente, os meus amados, as minhas ‘meninas’, as minhas folhas e a minha velha calculadora, eu segurei o sal de meus olhos. Eles não gostam de sal, então eu não daria sal algum. Com meus olhos, eu faria o doce mais gostoso que alguém já viu.
                E eu tentei fazer. Enquanto era surpreendida pela dor e pelo vermelho que inundava meus dias. Tão vermelho. Tão abundante. Quanto medo! Ainda bem que eu sabia que ‘tudo era correr atrás do vento’. Então, eles me carregaram enquanto eu andava. Eles me levantavam enquanto eu estava de pé. Isso eles faziam porque sabiam que, na verdade, eu ainda estava no chão. Eles eram eu. E eu estava neles.
                E por fim, eu consegui salvar o tempo deixado para trás. Salvei até o tempo acabado. Não fiz isso sozinha e essa é a graça de toda a história. Eu só voltei, porque não me deixaram. Eu fui, porque ia voltar. Ir sem voltar é vago, é ausência e silêncio.
                Eu desisti de desistir. Não me arrependo disso. Agora posso escrever com minhas mãos, aquilo que só escrevia com o coração. Posso escrever em qualquer lugar. E apesar de escrever para memorar, há coisas que jamais poderei esquecer. E a vida será minha melhor lembrança. E o desfecho será minha memória.


Alline Corrêa Frazão – 01/08/16 – 01h06min.

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