O homem que ouvia espelhos

Nota: Não deveria dar essa dica. Será que dou? Ah, ok! Essa crônica já é muito simbolista. Somente uma dica não fará mal, não é? Escrevi para um amigo. E falando de dicionários, lente também é professor. E 2 perdidos com Catto se relaciona voluntariamente.



                De cima da torre, eu e o homem que ouvia espelhos gritávamos aos transeuntes que nunca poderiam nos ouvir. Nós falávamos de ciências, de política e sobre asneiras. Eu nos ouvia como uma explosão de ondas sem interferências e, ainda, achava que isso era possível – como se as várias ondas do meu seio não fossem desconstruir as ondas de sua voz. E o homem que ouvia espelhos continuava a gritar, sorrir e girar, procrastinando os outros, mas nunca a si mesmo.
                A torre testemunhava todo o desarmônico desencontro. O desencontro do meu espectro côncavo de mulher e do espectro convexo daquele homem. Eu devia ter acreditado na imagem crepuscular do homem que nasceu para espalhar e, ao invés de ter tentado refletir alguma imagem, deveria ter sido o objeto de mim. O objeto real e altivo. Eu deveria ter sido meu pacote de energia. Mas o homem que ouvia espelhos sempre sorria, crítico e contemporâneo. Um quantum de mim.
                Não obstante, aquele homem que ouvia tantos espelhos e, justamente, por tanto ouvir, começou a ensurdecer-se. Os seus tímpanos e martelos tocavam um som alto demais e não era possível escutar mais nada além do ruído incessante e uníssono das imagens virtuais que formou para si. Involuntário, solitário e sacro. E de tantas virtualidades, encontrou entre os cacos de seu rosto os objetos dos outros. Outsider, nômade, narcísico.
                E depois de um dia inteiro sem luz, o homem que ouvia espelhos e a torre procuraram a mulher, me procuraram entre as sirenes e ondas duais que flanavam latentemente em escalas menores. Eu não estava mais lá. Eu não estou mais lá. Era uma torre que pouco falava e, outrora, um homem que nada falava para mim. O meu silêncio foi tão faceiro, que aos poucos desceu as escadas, deixou a torre e o homem, que nem eu mesma consegui ouvir.
                Apesar de estar vendo tudo de tão baixo, ainda sinto o vento ameno, a alíquota de vento que balançava nossos cabelos enquanto gargalhávamos sob o Sol. Sinto as asneiras inundar-me feito uma torrente de alegria. Ainda vejo a ciência roubar-me a monotonia. Cá dentro, sempre existiu a certeza que todos aqueles espelhos que o homem trás no bolso, em uma bela manhã aclarada, se tornarão em lentes de diversos tipos e tamanhos. E daqui de tão longe, poderei ver o homem que só ouvia espelhos, abrir-se lente para que os outros possam ver.

Alline Corrêa Frazão – 06/04/16 – 22h37min.

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