Chuva torrencial de excrementos

Nota: Ao meu Brasil Impeachmado. Se bem que eu não sei se é mais meu... Se é mais nosso...



"Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára"
_ Cazuza/Arnaldo Brandão

                A pressa de se chegar em casa, se fustiga com o cansaço. É final de tarde e o sol se põe sem a mesma pressa com que o tempo parece nos carregar até a velhice. Apesar de ainda haver luz solar, a lua começa a descortinar-se sozinha no encalço das nuvens. O bêbado vespertino diz que ela veio limpar o céu e também tem urgência, pois as estrelas não demoram para aparecer.
                E apesar de toda a demente urgência que trago em minhas veias, decido caminhar de volta para casa, recuso a carona inestimável da amiga mais gentil, enfio a mão nos bolsos e deixo os fones de ouvido na mochila. A mulher de vestido colorido da Rua E* me pergunta, pela décima vez, se eu moro na casa dela, enquanto ela mesma espreita os transeuntes de sua varanda. Eu sempre sorrio e digo que ‘não’. Ela parece ficar feliz. Ela tem folhas-de-louco no jardim.
                Na rua, os carros disputam lugares com as crianças, que voltando da escola, pretendem jogar futebol com os amigos. E os congestionamentos da Avenida P* ficam imensos, permitindo que os velhos que voltam do supermercado com as sacolas de verduras, possam ziguezaguear até a outra calçada. Estão todos de mãos dadas ou tão distantes de si e um dos outros, que o pêndulo social do companheirismo não vai nem para a esquerda nem para a direita. Apesar de toda a correria, todos estão parados – ou pelo menos a grande maioria deles. Os pais inertes levam seus filhos inertes para brincar na praça, enquanto os jovens inertes pulam, com os seus skates, na frente dos velhos inertes que se sentam nos bancos inertes de seus sonhos. As crianças sujam suas calças brancas na grama apática do playground e os empresários bebem suas cervejas inexpressíveis no barzinho gourmet. Eu vejo alguns pássaros, somente alguns, que parecem mover os olhos. O bico. A fé.
                Quando a cidade se paralisa para os seus ônibus se encherem de pessoas exaustas e irritadas, depois de um longo dia de trabalho, ou estudo – ou até mesmo um passeio – extenuante, a vida também se interrompe para esperar os seus fantasmas descerem da estação. Eles mudam de plataforma e vão para suas casas, muitos vão descansar, mas voltam no outro dia aos seus postos de trabalho fantasmagóricos. A cidade é como a vida, congestionada e caótica, cheia e poluída, conflitante e múltipla, mas indescritivelmente viva. São nas cidades que os maiores fantasmas respiram sossegados, partidários de uma vida confortável e faceira. São nas cidades que criamos nossos ratos, nossos bueiros, nossos presídios e hospitais. A cidade representa cada vida que se esgueira sôfrega de volta para casa – ou para a esquina – depois de um dia longo de sol.
                E nessa cidade brasileira doente, eu caminho durante uns quinze minutos até chegar na porta de minha casa, consciente de meus devaneios imbecis e decidida em partilhar, esses mesmos devaneios, em uma crônica silenciosa. Talvez em busca de barulho. Barulho melódico. E, ligeiramente, me sinto muito mal ao ver a nuvem sombria que cerca toda a redondeza. Lá em cima, todos estão pintando as nuvens de merda, colorindo o céu de imoralidade e manchando a lua com torpeza. E eu nem posso dizer que a culpa é toda dos escapamentos e torres de gases industriais, enquanto todas as urnas carregam tantas cinzas mortuárias, porque agora inevitavelmente essas nuvens irão despejar uma chuva torrencial de excrementos.
                E no final das contas, era para ser apenas uma crônica descritiva de um dia rotineiro e otimista, mas a gente – e não, agente – sabe que não é somente isso.


Alline Corrêa Frazão – 14/04/16 – 20h55min.

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