Laços de uma não-família

Nota: Se por acaso, ao ler o título deste conto, você se lembrar de Laços de Família da divina Clarice Lispector, você estará certo - é essa a relação. O conto representa várias personas da sociedade com pitadas de pimenta. Pimenta-do-Reino.

À Creditar...
"Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo."
- Sigmund Freud

                Dona Rita estava fazendo o jantar e, duvidosa se tinha posto sal e fastio nas batatas, encarava o pote de pimenta-do-reino. Marcela estava sentada no sofá com os livros no colo, mas assistia a um programa televisivo de disputa culinária. Seu Bruno estava dependurado na janela da sala, enquanto olhava o movimento da garagem do vizinho. Marcos, o filho menor, teclava com um grupo de amigos pelo celular.
                Apesar daquele silêncio descomunal entre os membros da família, a mente de todos fazia muito barulho. Marcos não conseguia aceitar a nota que recebeu do professor pelo trabalho sobre desigualdade de gêneros. O grupo todo estava revoltado, ainda que tivessem copiado de um site feminista. Mas nem Seu Bruno nem Dona Rita perguntaram sobre como foi o dia de escola do menino, nunca o fizeram e, por isso, só saberiam dos problemas quando os terceiros chegassem com o comunicado ou quando o boletim chegasse com a notícia da reprovação.
                Seu Bruno estava preocupado com a garagem de carros do vizinho. O Seu João vendeu outro automóvel, recusou a proposta da imobiliária que desejava comprar a casa velha e, girando feito um carrossel, reformou a casa por completo. Até pintou a casa do cachorro. Aquele velho danado! Devia estar com o rabo entre as pernas, porque embora Seu Bruno estivesse vendo tudo da janela do quinto andar, ele pensava que via tudo do quintal mais estreito e interiorano de João. Bruno sabia ler pensamentos, conhecia contas bancárias alheias e sentimentos arredados. E também, só conhecia isso.
                Marcela estava angustiada. Priscila roubara o seu amor. Ela tinha certeza. Aquela menina havia seduzido Fernando até que ele cedesse. A culpa era de Priscila. Agora aquele frango picado na TV podia ser ela. Ah, como podia! Amassado, temperado e sanguíneo.
                Rita terminava o jantar, enquanto se lembrava da cunhada. Ela havia comprado a cobertura. A cobertura! E quando Carolina lhe contou isso? Rita descobriu.
                _ Quando sua tia ia contar? – disse Rita colocando o jantar na mesa.
                _ Quem mãe? – perguntou Marcela desinteressada.
                _ Ora, quem?! Sua tia! Ela comprou a cobertura e não contou pra ninguém. Eu só soube quando a síndica veio me dizer, toda faceira, que minha cunhada era dona da cobertura. Marcos, Bruno vem pra mesa!
                _ Joaninha me contou, mãe. – relembrou, Marcela, que a prima havia lhe confiado a informação.
                _ Não me diga! Quando? Ah, Marcela! Você sabe que ela contou só para esnobar.
                _ Também acho, mãe. Ela veio me dizer que o namorado dela deu um perfume importado de presente de aniversário. Como se fosse da minha conta!
                _ Está vendo Bruno! Eu falo que sua irmã tem menosprezo por todos nós! Eu falo! Ninguém me escuta. – disse isso cutucando Marcos, que ainda não tinha desligado o celular.
                _ Aquela sua prima é tão mentida. Mas já vi foto dela beijando o namorado no celular do seu irmão. – disse Bruno de boca cheia.
                _ Beijando o namorado? Ainda coloca isso na internet? – enquanto Rita engordava o sapo, coachando no seu pântano pessoal, Marcos olhou sorridentemente faceiro para Marcela. Marcela fez que não com os olhos. Marcos continuou sorrindo para o celular.
                _ Parem de conversinha. Coma Marcos! – bradou Bruno.
                _ Quem nos dera ter a sorte de Carolina. Mulher solteira, rica, que não deve a vida a ninguém. – reclamou Rita.
                _ Querida, não fale assim. Eu... Bem, eu até preciso falar com você. – disse cabisbaixo o pai.
                _ Papai terá que vender o carro para pagar o aluguel, mãe. Ele também não tem dinheiro para o colégio. – abriu a boca, aquele menino.
                _ Como? Bruno! Quando ia me contar? Para onde foi seu salário? – disse a mãe batendo a mão na mesa, descabelando os Bobs, perdendo a fome.
                _ Querida...
                _ Não me chame de querida!
                _ Eu ia contar. Amanhã falarei com o Seu João. Ele soube que quero vender o carro e disse que pode comprar. Deve oferecer uma migalha, mas enfim deve dar para pagar o apartamento.
                _ E meus livros, papai? Como vou estudar sem os novos livros? – choramingou Marcela.
                _ Eu não sei!
                _ Não quero comer mais. Por que eu trabalho tanto nessa casa para você sumir com o dinheiro, Bruno? Por quê? Também não trabalho mais! – e a caminho da cozinha, Rita se deparou com o toque da campainha. – Ora! Era só o que me faltava! – abriu a porta – Carolina, minha querida, até que enfim veio nos visitar.
                Carolina entrou sorridente abraçando a filha. Não aceitou o convite para jantar alegando que já havia comido. Joaninha trazia alguns livros na mão. Rita pensou em desaforo.
                _ Oh, Rita, meu irmão me contou tudo. Como vocês estão?
                _ Indo, querida. Bruno foi irresponsável. – ‘e como ela queria que estivéssemos?’ Pensou Rita.
                _ Bruno, meu irmão, por que você não falou comigo antes? Joaninha trouxe os livros dela. Ela não vai mais usá-los.
                _ Eu ia dar para uma colega, tio, enquanto Marcela estava precisando. – falou amavelmente Joaninha, ao mesmo tempo em que estendeu o livro para a prima.
                _ Sim! E irmão, eu falei com Seu João.
                _ Com Seu João? – desengasgou-se Bruno.
                _ Claro. Ele pagará um preço que o seu carro não vale. Depois de contar como vai a situação de vocês, ele se compadeceu imensamente. A quantia, que você irá arrecadar com Seu João, será suficiente para quitar o apartamento e deixar o aluguel. Sem as despesas com os livros de Marcela, tudo entrará nos eixos facilmente. – contudo, Carolina percebeu certo espavento no olhar do casal e afligiu-se – Não devia ter falado com Seu João?
                _ Mas é claro que sim! Minha cunhada, obrigada! Como conseguiríamos sem você? – atropelou-se Ritinha.
                Carolina foi aclamada e louvada por toda a família. Joaninha era a prima favorita. Nunca foram tão bem tratadas pela família e a despedida foi longa e dolorosa. Elas subiram para a cobertura, eles desceram ao limbo.
                _ Pobre João! Amanhã irei agradecê-lo grandemente. – pendurou-se Bruno novamente na janela, gostoso pela garagem do vizinho, amável e grato pelo homem debaixo.
                _ Incrível foi Carolina! Se ela não fosse tão esperta e inteligente, não teria percebido nossa dificuldade. Falou com Seu João e veio pessoalmente nos contar a novidade. – disse Dona Rita enquanto sorvia seu orgulho.
                _ Aposto que tia Carolina só percebeu nossos problemas por causa de Joaninha. Minha priminha, trouxe todos os livros que eu precisava! Olhe, mãe! Estão novinhos. – gabou-se Marcela.
                Não obstante, infringindo a paz noturna, Marcos, que até aquele instante não largara o celular, avistou uma foto inédita. Surpreso e jocoso, ele saiu mostrando a foto para os habitantes daquela sala de estar vazia:
                _ Irmã, essa não é você beijando o irmão do Fernando?


Alline Corrêa Frazão – 19h32min – 25/03/16.

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