Se o amor voasse

Nota: Primeira crônica do ano. Primeira crônica depois de muito tempo. Quando aprendi a escrever crônicas, através de um grande professor - e que ele me perdoe, vou ter que citar seu nome - aprendi a fazê-las de forma banal. Marcos Baiano me ensinou a falar sobre banalidades alheias e sublimidades pessoais. Obrigada, meu professor! Quem me dera essa crônica ser digna de sua personalidade!



                Ontem encontrei um passarinho caído no chão. Ele tinha asas, mas não sabia como usá-las. Ele estava sozinho e encolhido ao lado do muro alto que cercava as goiabeiras. O sol estava quente, mas depois choveu. Choveu e fez sol. Porém o passarinho continuava lá, tentando descobrir se seu gazeio lhe traria algum tipo de socorro.
                Depois de alguns longos minutos, um pássaro forte e robusto apareceu voando, fazendo ronda nas goiabeiras. O pássaro adulto nutria belas asas e sabia fazer rasantes herméticos em volta das fiações de energia da esquina. Ele piava alto. Ele ansiava pelo pássaro pequeno, frágil e indefeso.
                Ali, debaixo da marquise de uma loja de roupas usadas, eu fiquei colhendo angústia e clamor. Por um tempo, pensei que poderia ajudar o pobre pássaro, procurei um suposto ninho nas árvores próximas e, com a ajuda de uma grande amiga, o carregamos para a sombra. Mas o passarinho queria o sol e a chuva, o calor e o frio de antever-se em sua solidão.
                Até que o pássaro adulto ouviu seu pequeno chiado, até que ele desceu férvido até o chão e encontrou seu companheiro, sua família, sua desconsolação. Mas havia transeuntes que espantavam o pássaro maior. O grande pássaro temia ser esmagado pelos pesados sapatos dos que não possuíam tempo a perder. Ele fugia, voltava e, fugia novamente, toda vez em que não se encontrava eremítico.
                No entanto, meus olhos puderam ver, na fração de segundos em que os dois pássaros se encontraram, a alegria mútua de um conforto e esperança. Somente quando o pássaro adulto se deparava ao lado do pássaro menor, o segundo podia bater as asas, conseguia flutuar no chão. O pássaro menor voava. Sua alegria batia asas.
                Os bicos se encontravam e trocavam carícias.
                As asas se batiam em seu partir.
                Os gazeios alcançavam as goiabeiras que ainda estavam para nascer.
                Eu queria muito dizer que o pássaro menor conseguiu voar juntamente com o pássaro maior de volta ao ninho. Eu queria muito dizer que eu encontrei o ninho do pobre pássaro e que consegui colocá-lo de volta. Eu queria muito dizer que ele não foi devorado pelo ritmo frenético de uma cidade insone. Mas eu não posso... Tudo. Nada.
                Contudo, vi o amor depois de tanto duvidá-lo. Vi exatamente o que era o amor. O amor era um grande pássaro tentando ensinar a um pássaro pequeno como se bate as asas, como se deixa o ninho. O amor era o voo rasante de um pássaro que temia ser esmagado pelos transeuntes que não param para cortejá-lo. Mas era um pássaro colossal e destemido que buscou pelo outro, o opulento encontro em se permanecer e estar.
                O amor era aquele alvo tênue que não conseguiu encontrar o caminho para casa. Porém, também era o ninho abandonado e vazio no alto das goiabeiras do vizinho, detrás do infindável muro da consciência. O amor era a chuva e o sol, o frio e o calor, o que voa e o que arrasta, o que canta e o que silencia; o amor era a insistência em permanecer sozinho. Mas também era a partida de quem não conseguiu voltar.


Alline Corrêa Frazão – 10/02/16 – 00h41min.

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