Sobre escrever

Nota: O tema do fluxo (in)fixo, dessa vez, é um tema muito abordado por todos os escritores desse vasto mundo. Eu e Matheus pensamos em escrever sobre escrever também. E aqui estão, dois textos totalmente distintos em suas cargas emocionais e estrutura, mas unidos por um tema imaculado. E para vocês, queridos leitores, o que é escrever?

Da web.

Um papel... Doce.

            Recentemente, gastei tempo dentro de um sebo. Levei algumas obras clássicas. Sebos são ótimos para isso. Os clássicos que ninguém mais quer que, muitas vezes, você não teve tempo de ler no colegial, são jogados a desventura das estantes ensebadas. Eu não sou muito rigorosa quando compro algum livro do sebo, em relação quando vou às livrarias convencionais. No primeiro, eles não precisam estar impecáveis e me é até agradável ver as marcas do tempo, os arranhados, as orelhas-de-burro, as anotações e até dedicatórias. Isso, quando a equipe dos sebos não dá uma restaurada geral. A verdade é que eu gosto do gosto amargo do tempo, nunca tive problema com ele. Gosto de ranhuras.
            Sempre me vi escrevendo no papel como quem arranha uma parede crespa com as unhas. Mas na verdade, minha letra é tão suave, mal dá para marcar a página do lado, é quase plana, sem ar. As ranhuras estão cá dentro, dentro do meu peito, no meu sebo interior. As obras velhas que tenho guardadas põem em ordem todas as palavras. Ou não. A desordem tem uma maneira vulgar de equilibrar as palavras, as pessoas e o mundo. A desordem é o próprio tempo.
            Se sou tão suave assim por fora e tão implosiva mentalmente, há de se perceber também nas minhas leituras e escrita. A ênfase dessa vez é ‘Essa terra’ de Antônio Torres. Comprei o título, passei os olhos rapidamente para ver se não tinha nenhum grande rasgo e fui para casa. Ainda estava terminando de ler dois livros, mas me peguei folheando a obra de Torres em casa antes de colocá-lo na estante, no seu lugarzinho reservado. E o que eu encontrei, me sobressaiu como uma grande flechada.
Mais sobre o escritor [AQUI].
            Em um papel de doce, fino, quadrado e amarelado, estavam escritos em letras rústicas e redondas, letras firmes e à caneta azul: “Primeiro doce que o R... me deu.”.
            Há de se imaginar até que ponto o amor de uma garota, ou a paixão infantil de uma mocinha, faz com que ela guarde o primeiro papel do doce dado pelo namoradinho. Por que ela guardou esse papel em um livro tão dolorido? Por que abandonou esse livro? Pobre garotinha! Talvez precisasse de mais espaço na estante. Talvez precisasse de mais espaço no coração.
            Esse livro retirante que percorreu, do interior do sebo até a grande metrópole empoeirada do meu peito, uma grande distância, trouxe consigo um relato tão doce quanto à memória de um bombom ganhado de um grande amor. Nessa Terra pueril de vidas lacônicas, ganhei um pequeno pedaço de alguém que já foi outro alguém um dia. Do papel, todas as letras estão bem conservadas, menos o grande nome, nome que começa com R..., nome que carrega tanta sutileza e doravante dor. Apagado por lágrimas, por água, por leite ou por mim?
            Na verdade, escrever assume esse sentido. Não quero deixar que minhas memórias, sejam elas doces ou amargas, se percam dentro do meu sebo gigante. Não quero que se apaguem dentro de mim, os pequenos pedaços ou migalhas que um dia, de alguma forma, eu tenha sido. E se um dia eu precisar resgatar tudo isso? E se um dia eu precisar de R...? Precisarei ter um motivo, plausível ou não, que me leve a correr atrás do que seja lá, uma boa, nova ou velha, força motriz. Precisarei lembrar que comer um doce é bom, se quiser me dar um novo bombom.
            E os transeuntes que compartilham dessa matinal substância são, basicamente, o que eu fui quando entrei no sebo e levei o exemplar de Torres. Compram ou levam de graça o que deixo guardada para mim mesma. Levam e me leem de tal maneira, que é como se nos fizéssemos parte um do outro. Isso tudo, tudo isso, é o tempo, que também somos nós, pondo ordem às nossas estantes.
            E quanto ao papel velho de doce que se encontra entre as páginas do meu livro? Ali o deixarei, permitindo que as traças o roam, levando R... a sua morte e Antônio Torres a um grande pedestal. E se eu perder o papel? E se eu perder esse livro? Ah, não há problema algum. Eles já estão eternizados aqui.
            Nesse
            Sebo
            Que
            Não
            Tem
            Nome.


Alline Corrêa Frazão – 27/09/15 – 17h25min.

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Metalíngua

           O mundo acabou hoje, mas eu continuo dançando. Sento. Levanto. Giro. Giro tanto que sinto um buraco no chão se abrir. Não importa, penso eu. Meus pés estão leves e já não querem mais o chão. O ar tomou-me por completo e sinto que preciso voar. Minhas asas não correspondem ao meu ritmo. Nem as teclas destas máquinas ameaçadoras que me dominam. Nem o lápis raspando as linhas de celulose desta sinfonia mal feita e que tende a se esvair com esta epífora. A água maldita bendizeu meu exército que se exercita de forma exuberante neste abismo que se forma entre meus pés. Mozart não aprovaria todo este enfeite, mas Chopin me apoia. Não briguem, meus queridos. Nunca tive a finalidade de deixar um legado apto a ser criticado pelos meus descendentes.
        Indiretamente eu sinto que as palavras que vêm à minha mente estão em desatino. Desalinharam-se ao que preciso dizer. Temo colá-las em um papel. Elas não param de trocar a ordem. Meus olhos tentam acompanhar uma tela cheia de signos que não dizem nada a não ser o que já sempre soube. Enxergo meu interior e só vejo ar. Mas ainda assim não voo. Minhas sílabas não conseguem mais se unir e quando vejo, estou participando de fóruns de discussão a respeito das diferentes pronúncias da letra “r” em língua portuguesa. Roído estou dentro destas roupas. Camões teria vergonha se visse o estado da minha caravela que não sai do lugar. Eu não quero uma caravela que navegue. Navegar não é mais preciso para mim. O que preciso no momento é de voar.
             Mas eu ainda vejo uma lua. Não uma lua qualquer. Uma lua enorme. Não conseguiria definir tamanho grau de grandeza para a beleza que vejo. Não é uma pintura, uma escultura ou simples rabisco de lápis grafite em folhas papel-creme. É um branco descomunal. Tão lindo e prateado, mas branco. Branco como a luz. Branco como a morte gélida que espera a todos e na aurora boreal se faz particular. A lua se aproxima de mim. Encho-me de ar e quero voar para pousar nela. Só que o cheiro dos pasteizinhos-de-belém não me permitem. Como. Bebo. Deprimo. Escuto um fado tocar longe num banjo. Luso ou hispânico? Para que estas caravelas? Já não disse eu que não preciso delas? Mas a lua insiste em crescer. A cada momento ela se aproxima de mim e assusta-me. O mar me engolirá ou a lua me fará dela? Não entendo. Não consigo dizer.
Desconheço autoria.
        O branco torna-se vermelho-escarlate. Oh, Meu Deus! Que divino! Sinto que meus pés começam a flutuar. Pronto! Minhas asas já estão de volta. As palavras me cercam, mas me ajudam a realizar meu desejo pervertido. Voo como se não voasse. Estou como se fosse mesmo. Sinto como se realmente eu pudesse sentir qualquer coisa nessa vida. E esta escrita? Só tem me tornado cada dia mais próximo da lua. Pois disse e tenho dito: apenas aquele que se cerca de palavras é que consegue voar.
             As horas passam. Já não tenho relógios na parede que me avisem quando será meia-noite. Já não temo criaturas sombrias da noite que possam vir me atacar. Mas sinto que não pertenço. Sinto que preciso de um grupo. Sou só ou estou só? Ouço vários lobos uivando sob o luar escarlate. Estão à procura de presas fáceis para seu jantar. Comem e enchem a boca de sangue. Sangue! Por que tudo tem que ser vermelho? Assim como os lobos, eu me recolho quando o vejo os primeiros raios de sol. O tempo passa. As asas batem e voam. Mas o vermelho sempre acompanha os lobos e aqueles que não possuem mais nada além das palavras.

Matheus Castilho - 25/09/15 - 16h58min.

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