Inércia

Nota: Esse texto era para ser um capítulo. Virou uma postagem. Engraçadinho, não acham!? É o meu tipo de humor, se é que posso chamá-lo assim. A personagem não sou eu, mas faz parte da nossa inércia de cada dia. Pensem!

Max Ernst - A mulher Equívoca.

   Hoje estou passando um pouco mal do estômago. Não! Mentira! Hoje estou passando muito mal do estômago. Bem-vindo ao mundo, suco gástrico.
   Por algum motivo, a manhã me pareceu mais safada. Brilhava fogosamente sobre os meus olhos, rebolando onde não foi permitida a sua entrada. E esses raios do sol acordaram minha enxaqueca. Adeus, caneca de café.
   Não obstante, isso não é um motivo tão ensurdecedor que me impeça de levantar. Ou é? Ai minha cabeça! Ai meu estômago! Ai que raio de sol!
   Levanto. Levanto como folhas secas caídas no chão, quando o vento arrasta-as para uma terra longínqua. Como poeira espalmada dos móveis. Contra a lei da gravidade, gravemente, dolorida por uma gastrite, ligeiramente, nervosa. Isso passa!
   _ Passa manteiga no pão! – foi o que disse para aquele gato estirado no sofá.
   _ ...
   
   Ele não disse nada, porque era um gato de algodão, em formato de almofada.
   _ Certo! Passarei passada de... Enfim, passarei. Antes que meu estômago salte das minhas entranhas e faça isso por mim, deixando-me órfã de sistema capaz de digerir alimentos.
   Enquanto, esse tal pão com manteiga esquentava na torradeira, coloquei a pequena vasilha com água na Tempra do fogão.
   _ Chá de camomila ou de erva-doce? – olhei para a galinha de fios capim de ouro (que não são de ouro) que estava em cima da bancada portando alguns ovos. - Ah! Você não tem língua!
    E por instantes seguintes, em represália de racionalidade, pairei com o olhar sobre os azulejos da cozinha. Tive vontade de contar quantos quadrados de rejunte havia. Desisti depois de ver um mosquito passando com seu zumbido sutil e natural. Até a torradeira fazer um bipe.
   _ Calma! Estou aqui. – disse pegando os dois pães com manteiga, agora derretida (sorrisos).
   Impacientemente, tirei o chá do fogão e coloquei na velha xícara que deveria ser usada para tomar café. Não importa a função, ela é o que é e pronto. E me sentei à mesa, como uma moça desleixada a tomar seu café da manhã (que não tinha café, mas tinha a manhã safada).
   _ Ahhhh! – com a língua para fora. – Esqueci-me de por açúcar de novo! – E fiquei olhando o pote de açúcar cheio de formigas a cinco cerâmicas de mim. Distância substancial para alguém com gastrite. Mas peguei. E quando me sentei novamente à mesa, lembrei que precisava de uma colher. Assim, tive que levantar de novo e andar por doze cerâmicas até a gaveta com talheres. E antes de me sentar de novo, parei e pensei se não estava esquecendo-me de mais nada. E vi que estava perdendo tempo pensando nisso, porque eu não tinha esquecido mais nada.

   _ Ahhh! O caminhão de lixo vai passar agora! – e saio correndo com um saco de lixo na mão.

Alline Corrêa Frazão - 2014 (Infelizmente, perdi a data e hora).

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