Nega maluca

Nota: este texto não tem qualquer cunho racista. Somos todos humanos e nossa página luta por todas as causas sociais. Ele foi desenvolvido através de uma receita de bolo. Façam o de vocês e nos mandem a foto pelo face ou pelo Twitter. O meu está delicioso e o de vocês? Talvez faltasse mais vermelho. Obrigado.




     Hoje ela acordou doida. Pirada mesmo. Colocou seu avental branco e foi para a cozinha. Estava parada lembrando-se que a única beleza que o mundo lhe trouxe foi ser fera. Mas ela é forte. Louca, mas forte. Pratos, talheres, fogão, mesa e cadeiras. Alguns armários. Nunca soube o que havia dentro. Mas eram grandes e talvez cheios de nada. Só que tudo cheirava a chocolate. Chocolate bem preto mesmo. Carvão. Nem um pouco doce. Amargo como tudo deve ser. Deve mesmo ser tão amargo? A nega chegou à conclusão que deveria ser agridoce. Mas o chocolate não consegue ser outra coisa.
     “Birds flying high, you know how I feel”, ouvia-se de longe. “Sun in the sky, you know how I feel”. É, realmente a nega estava se sentindo bem.
-                     O nome pode ser racista, mas a intenção é pura e divina. Disse a mulher.
     “Uuuuuuuuh”. Ela estava realmente se sentindo bem.
  • “1 xícara de ÁGUA
  • 1 e 1/4 xícara de CHOCOLATE EM PÓ
  • 1 e 1/2 de AÇÚCAR CRISTAL
  • 4 OVOS
  • 1 xícara de ÓLEO VEGETAL
  • 1 colher de sopa de EXTRATO DE BAUNILHA
  • Uma pitada de SAL
  • 2 xícaras de FARINHA
  • 1 colher de sopa de FERMENTO EM PÓ
  • 1 lata de LEITE CONDENSADO
  • 5 colheres de sopa de CHOCOLATE EM PÓ
  • 1 colher de sopa de MANTEIGA
  • Uma pitada de SAL
  • 1/2 LATA DE CREME DE LEITE sem o soro.”
      E logo o forno estava cheio. Ela lembrou-se de ler um conto uma vez, no qual havia uma mulher que comia e engordava. De repente, não precisava mais comer para engordar. Sentiu certa culpa no começo por estar armazenando alguns lipídeos a mais. O relógio continuava a fazer o mesmo barulho irritante de sempre. Mas a nega só pensava em sua criação que não ficava pronta nunca. O cheiro crescia e enchia a casa. Quanto cacau! Faltava apenas cravo e canela. Mas ela só sentia o chocolate mesmo.
     Parou de se importar. Saiu da cozinha. Foi para o banheiro, tomar um banho. Derramou alguma água dos olhos. E isso era perturbador? Não. O chuveiro lavava muito mais do que aquelas poucas lágrimas. Nem dava para saber de fato qual água pertencia a ela. Talvez toda. Perfumou-se. Penteou-se. Vestiu um vestido fino e caríssimo que ganhara de uma madame uma vez. Calçou-se. Passou aquele batom vermelho. Ela reluzia feito ouro. Ouro, não! Era sua alma.
     - Hoje eu tiro aquela foto! Alegrou-se a mulher.
    Voltou à cozinha, que estava amarga como o chocolate que cheirara. Havia uma rosa vermelha e uma faca em cima da pia. Pegou um papel e uma caneta. Escreveu um bilhete no qual dizia: “Cuide bem dessa rosa, trate ela melhor do que tratou a mim”. Mas ninguém percebeu que agora a faca e a rosa estavam da mesma cor. Só o cheiro da cozinha, que continuava amargo, mas também agora era quente e cheio de vida. Vida de quem? Não sabiam. Mas era vermelha. E se foi.


Matheus Castilho Corrêa - 20/06/2015.

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