Peçonha

Nota: O sumiço desta que lhes escreve se deu exclusivamente por causa de um longo hiato. Neste período, estive me abastecendo de Tolstói, Dostoiévski e Hermann Hesse. Talvez, esses ilustres escritores e as minhas últimas leituras justifiquem o tema do poema a seguir. Um poema simples para recomeçar. E essa música sempre me lembra o tema. Então, prazer à todos, novamente! Eu sou Alline. Não diria uma nova, porque tenho estruturas velhas compondo novas coisas, mas outra figurante. Um primeiro hiato. Virão outros mais...




Da janela vejo o Sol embaçado
Pelas nuvens tímidas que disfarçam,
Os segredos contados aos ventos
E que eles continuam procurando nos conventos.

Eles que despencaram das árvores,
Bateram com as cabeças na grama,
Vomitaram a si mesmos – progenitores
Do vácuo de suas entranhas.

Procuram no percalço alheio, o encalço divino.
E bebem cupidez como vinho.
Excogitam-se com filósofos e santos,
Enquanto serpentes protelam seus antros.

Vestem-se de sobretudos de lã,
Aquecem o corpo nas noites de inverno.
Apesar dos olhos de vidro e hálito de avelã,
A língua solta – do coração frio – as labaredas do inferno.

Espalham gargalhadas nas grandes salas
E riem baixo da cadência dos que passam.
Mas em seus quartos – quase sós – estalam
O silêncio emergente da noite que perpassa.

E quando o Sol nasce novamente,
Caem da cama batendo com os olhos no criado-mudo.
Já faz muito tempo que não enxergam e mentem
Aos espelhos do peito agudo.

Mas a alegria desses volta
Quando, em alento, encontram outros figurantes.
Vão encenando, dia após dia, à porta.
“A grande atuação dos infamantes!”

Esses pobres coitados que perdem tanto tempo
Acreditando somente no espaço que os enovelam,
Comprando qualquer aplauso e passatempo
Para preencher o silêncio das mentes que vegetam.

E agora, da janela, já vejo o Sol.
E o astro brilha no céu claro.
Já não preciso esconder nas nuvens este nó.
Afinal de contas, todos –algum dia – conheceram algum bárbaro.




Alline Corrêa Frazão – 01/04/2015 – 9h54min.

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