As mãos da serpente

Nota: Este conto foi escrito antes do último texto publicado "Peçonha", mas só agora venho publicá-lo. Temeis? Eu temeria!

Encontrado na Web
 “Nós somos ridículos, levianos, cheios de maus hábitos, sentimos tédio, não sabemos olhar, não sabemos compreender, ora, todos nós somos assim, nós todos, e tanto os senhores quanto eu, quanto eles. Porque os senhores não vão ficar ofendidos pelo fato de eu estar lhes dizendo isto na cara, dizendo que somos ridículos. E sendo assim, por acaso os senhores não são material? Sabem, a meu ver, ser ridículo é às vezes até bom, até melhor: é mais fácil perdoar uns aos outros, é mais fácil fazer as pazes; não se vai compreender tudo de uma vez, não se vai começar diretamente pela perfeição. Para atingir a perfeição é preciso primeiro não compreender muita coisa. E se compreendemos muito rapidamente vai ver que não compreendemos bem.”
— Dostoievski


                O chão estava cheio delas, serpenteando como se ouvissem algum ritmo latino, arrastando suas escamas para mostrar sua aspereza, espelhando a língua para fora a fim de impor seu veneno e balançando a cauda com destino a chamar atenção da multidão. Elas estavam soltas e todas eram humanas. Das serpentes que conheci, muitas tinham mãos.
                No centro da sala, havia quatro pessoas e todas sorriam para mim, alimentando a falsa visão de uma sociedade educada e amável. No entanto, por detrás de todas as convenções, há milhões de julgamentos e escrachos. Minha pobre mãe servia a todos com zelo e destreza. Ela tinha acordado cedo e feito todos os bolinhos e, cantarolando, enfeitou a mesa. Mas quando meu primeiro tio chegou, ele olhou para as cadeiras, pratos, cortinas e depois, só depois, foi abraçar a irmã. Os dez anos que separavam aquele encontro do último acontecido, não traziam a mínima importância, exceto porque era conveniente visitar a irmã agora que...
                Aos poucos, todos se sentaram. Conheci o último filho de meu tio que havia nascido logo após a primeira partida. Seus nove anos não minimizavam seu olhar debruçado sobre os móveis. Minha prima tentava amenizar o peso do ambiente trazendo as últimas notícias do mundo que só ela conhecia e a sua mãe aplaudia convicta, mesmo não sabendo do que se tratava a conversa. Talvez, o momento mais patético tenha sido a explicação do meu tio sobre o seu sumiço. Ele proferiu que só estava ali por pura e simples saudade. E ele precisou de dez anos para sentir isso.
                No fundo, minha mãe sabia que aquele ato era só o começo da peça e que depois de aberta a cortina, o espetáculo tinha que continuar, assim mesmo, empurrado a força. Apesar de ter feito tudo com carinho, sentia uma ponta de dor, de ânsia de que tudo terminasse mal. Quem sabe, sentia até culpa! Pobre coitada! Não devia ter dito a minha avó sobre tudo o que estava acontecendo. Agora, éramos fruto de atração, de visitas infundadas e de saudades repentinas.
                Se pelo menos, todos aqueles risos me fizessem bem, mas pelo contrário, eu sentia um asco dentro do estômago e o bolo da mamãe descia seco pela garganta molhada. Aquilo estava me deixando confusa e todo aquele espetáculo sem fim me impedia de abrir-me, adejar até a portinhola mais próxima e flanar ao encontro dos refugiados. Era como se eu estivesse em um galinheiro e visse, dia após dia, uma galinha ser levada para o forno do fazendeiro, até que restasse apenas uma galinha e esta fosse eu. Quando meu tio entrou pela porta e perscrutou todo o local, sabia que ele estava procurando tecer sua armadilha. A prima falava e não se aquietava, enquanto a mãe entretinha a minha mãezinha. O caçula mergulhava no açúcar. Realmente, a gaiola estava fechada.
                Tudo começou há mais ou menos três meses atrás, quando apareceu a primeira pena. Eu estava escovando minhas costas quando a encontrei, meio acinzentada, meio sabiá. Confesso que fiquei espantada e tive medo, mas depois do diagnóstico, coube-me a paz e o silêncio. Agora que sou um pássaro, deixaria de pisar em ovos. Porém, minha mãe contou a minha avó, que contou ao meu tio... Sentiria falta dos ovos no chão, das jacas e dos abacaxis. Os Serpentinas me visitaram e isso bastou para que todo o arrependimento viesse à tona.
De Art Pics.
                Eu deveria ter partido na primeira migração para o porto do Chile. A viagem seria longa, mas estaria a salvo lá. Fiquei esperando as asas da minha mãe, que nunca apareceram, por compaixão – não queria deixá-la só. Não segui meu caminho, deixei o deslocamento cíclico, que perece a todos, passar e, presentemente, as serpentes ameaçam me devorar.
                Então, era para isso que eles vieram. Queriam-me. Sem mastigar, com penas e bico. Digerir-me até o último osso. Tencionavam até meus olhos. E essa notícia correu tão rápido pela cidade, que quando menos esperávamos, havia milhões de Serpentinas adentrando minha casa. Eram tios, primos, agregados – alguns que nunca ouvira falar – todos comendo bolinhos e olhando as cadeiras. Com vários rodeios, impediam o meu verdadeiro ciclo, e assim, a noite caiu, singela e tranquila nos ares externos da casa.
                _ Como aqui está frio, signorina! Feche as janelas, não deixe o ar entrar! – e minha mãe obedecia calada, trazendo mais massas e bolos à mesa. Era um banquete singular. Eu, o prato principal, silenciava-me em um canto da sala, recuada e arredia. – Assim está bem melhor, mais aconchegante!
                _ Minha pobre irmã, como trabalha! Devia se sentar e descansar um pouco. Aproveite os seus sobrinhos. Olhe como meu filho se parece comigo, irmã!
                _ Na verdade, ele herdou metade do material genético da minha mãe e metade de você, papai – dizia a minha prima ao balançar repetidamente sua cauda.
                _ Oh, minha querida! Sim, sim! Haha! – ria-se, talvez se saiba lá de quê, a mãe da garota. E os irmãos conversavam, os primos brincavam, os cunhados se conheciam. Escama por escama.
                _ Signorina, sua filha, traga-a para cá! – e minha mãe, trazendo-me para o centro da sala, eles fizeram uma roda ao redor de mim. Aquilo me deixou sem fôlego, enfraqueceu meus ossos pneumáticos e cansou meus nervos. – Como ela cresceu! Como está vistosa! – e giravam em torno de mim, envolta da sala cúbica, atropelando os móveis, serpenteando entre os pés das cadeiras e da mesa.
                _ Ela tem asas da mais fina pena, papai! – e a prima fazia todos porem suas línguas para fora, ao sentirem no ar, o meu odor e o meu intento. As centelhas aumentavam na sala. – e os ossos são bem digestivos, fáceis de quebrar.
                _ Papai, estou com fome! – gritava o caçula e minha mãe se compadecia dele. Olhando-me nos olhos, escolhia minha perninha esquerda.
                _ Quero um casaco de penas, amor! – e o esposo virava os olhos.
                Não obstante, todos queriam o mesmo, sem exceção, planejavam o ataque. A língua bifurcada naquele movimento incessante de vai-e-vem provava a alcova. E os segundos passavam lentamente.
                Um translado pra cá.
                               Um rastejo pra lá.
                                               Um desvio acolá.
                Todos estavam a poucos milímetros de mim, tão amontoados, tão sufocados que em um acesso de fúria e ansiedade, quando todos foram abrindo suas bocas e mostrando suas presas, quando – ao mesmo tempo – impulsionaram seus corpos roliços até meu corpo amedrontado, eu me encolhi como um feto. E naquele ato, todos com suas línguas altivas, abocanharam uns aos outros em uma reação em cadeia surpreendente, ridículos e esfomeados, engolindo sem notar a origem do alimento – de pupilas seladas. Quando me coube em um pequeno espaço-tempo, espremi-me e fugi voando por entre as cobras que devoravam umas as outras, pais e filhos, filhos e pais, marido e mulher, agregados e bajulados, todos, mutuamente, se deliciando sem ponderar.
                Um pássaro voando fora da gaiola, por cima das grandes cobras que iam crescendo na medida em que devoravam uma as outras. Porque as pessoas são assim, completando o eterno retorno, dando combustível ao eterno carrossel de suas vidas. Em um giro mortal, entrelaçam as cordas, perdem as rédeas dos cavalos de plásticos e são arremessadas para fora do sistema por uma força astral rotineira.
                Contudo, quando já estava a algumas asadas de minha casa, já voando para o lugar dos refugiados, lembrei-me da minha pobre mãe, abandonada à desventura daquele caos. Agora que estava mais forte, talvez eu pudesse levá-la dependurada em minhas pernas. Então, voltei. Encontrando-a acuada em um canto da cozinha, sussurrei baixinho:
                _ Mãe, voltei para buscá-la. Vamos. Segure em mim.
                _ Filha, seu tio, comeu todos. Está gigante. Fuja! – mexendo com os olhos incessantemente por todos os cantos do cômodo sem, ao menos, olhar para o meu rosto.
                _ Não a deixarei, mãe. Vamos!
                _ Aqui!!! – disse minha mãe. E até que eu viesse a entender, meu tio já se deparava enormemente atrás de mim. Uma grande serpente, golfando escamas. – fique com ela. Temos um trato. E deixe-me voar. – e de repente, minha mãe solta, por detrás de seu xale, lindas asas pretas. Assustada, percebi o embuste.
                _ Combinado. – e enquanto meu tio me amarrava com sua língua asquerosa, vi minha mãe partir com as asas negras sem olhar para trás.
                Agora, estou presa no meu quarto enquanto meu tio se desfaz de toda aquela comilança anterior. Quando ele sentir fome novamente, eu serei o próximo prato. Antes disso, vou documentando minha triste história para que outros sabiás não caiam na triste mentira de acreditar que sabiam que eram amados. Ter certeza de algo é tão imbecil quanto um parque de diversões cheio de adultos, que quando está preste a fechar, é surpreendido por choros e birras constantes de homens e mulheres querendo continuar suas brincadeiras. Porque nada é certo, tudo é muito relativo e nada se sabe do outro até que se fechem as bilheterias.
                Do calabouço da alma do pássaro solitário pendem três silêncios:
                               Um canto,
                                               Um fim e
                                                               Um...
                Porque no fundo, talvez, eu, o sabiá, não saiba mesmo de nada.



Alline Corrêa Frazão – 12/04/2015 às 23h23min.

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