A mancha de açafrão

Nota: Antigo. Passivo de esquecimento. Ah! Vou deixar ele entrar para minha história. Por que não? Segue-se um conto fantástico tecido pela espinha.



   O cômputo estava errado. Aqueles números jogados na escrivaninha logravam-na. O escritório em silêncio deixava escapar um eco nas paredes azuis de suspiro intenso e sobrecarregado. Desanimada, apoiou o pulso na fronte e retirou os sapatos pretos esticando os pés. Respirou por um longo momento. Levantou a cabeça introspectivamente e desligou o computador (que respirava como um dragão resfriado). Com um movimento ágil, girou a cadeira e se pôs de pé. Corpo erguido, sôfrego, mãos paradas, olhos cabisbaixos, disse para si mesma:
   _ Talvez o cômputo errado aqui seja você, querida. Será que você não percebe que não tem nem a pergunta? Que dirá uma resposta. Vá para seu quarto, tome um banho frio, deixe os números descansarem.
    Saiu para a sala, subiu as escadas, entrou no quarto e retirou suas roupas. Agora, a água caía em seu corpo e escorria pela cerâmica. Ela chorou como uma torneira fria:
   _ Se eu pudesse descobrir a resposta. – e com o dedo indicador desenhou no vidro embaçado números trêmulos e ficou a observá-los. – Se vocês falassem alguma coisa.
   O banheiro suado não tinha muita coisa para falar. Então, ela se enrolou na toalha branca e parou de frente ao espelho e observou a escova. Pegou o pente e o passou nos cabelos enrolados e, por um momento, viu sua face no espelho, embaçada, mas o que parecia um oásis no meio do deserto e uma resposta, logo trouxe a sede de uma boca úmida e rachada. Percebendo que não estava saciada, se enxugou, vestiu uma camiseta comprida e cinza e desceu até a cozinha. Abriu uma garrafa de vinho com dificuldade. A rolha estava bastante presa e quando finalmente conseguiu retirar, um barulho ecoou pela casa. Ela pulou para trás e percebeu que, além do barulho da rolha ao bater na porta da geladeira, alguém gritou de susto lá do corredor.
   _ Quem está aí? – disse vasculhando com os olhos o cômodo com medo.
   O silêncio voltou a falar na casa e resolveu acreditar que deveria ter sido o vento, hoje, forte que derrubou alguma planta na varanda. Pegou uma taça e despejou o vinho tinto. Foi para a sala olhando os móveis, as cortinas e o velho tapete manchado com açafrão. Por alguns minutos permaneceu ali, parada, absorta em si mesma, olhando para o vácuo, para o buraco-negro entre as constelações conhecidas que estava prestes a engolir sua pesada cabeça. E levando os olhos vagarosamente pela casa, avistou a estante de livros no fim do corredor, o que dava para uma saleta amarela, cheia de outras estantes e livros empoeirados, uma poltrona confortável e um par de óculos extras sobre os livros da mesa.
   _ Quem sabe os livros possam dizer algo.
   Sentou-se na poltrona, colocou os óculos  e pegou qualquer livro. Suas pupilas contraíram. O suor desceu de seu pescoço beijando seus seios. A casa estava quente, mas ventava lá fora.
   _ Que calor, meu Deus!
   A taça começou a suar. Os livros ficavam manchados com o líquido que saía dos dedos dela. Escorria pela casa um ar pesado e quente. Então, abriu a janela, mas o vento fugia para o sul. O vinho evaporava. Os números nem as palavras falavam, o que foi deixando-a nervosa e eufórica.  Agoniava puxando os cabelos. Olhou para uma estante velha e enfartada e avistou a bússola velha de seu avô. Recordação sutil e triste, mas como não sabia para onde apontar deixou-a ali onde estava – empoeirada e esquecida pelo tempo.
   _ Vou tocar piano. Talvez a música tenha algum consolo ou solução. Sem respostas não posso jazer.
   Nitidamente dava para perceber o desespero. Ela corria para o piano. Escolheu qualquer partitura e começou a tocar.  E o piano obedecia ao seu toque sem questionar. As notas dançavam pelo cômodo com certo enfado, enquanto o calor continuava.
   _ Onde estão as respostas? Onde estão? Diga-me!
   De repente, misturada à melodia passos começaram a se formar. Pela escada alguém descia furiosamente. E à medida que se aproximava, o calor aumentava. As cortinas pegaram fogo. O piano estrangulava-se. Ela parou a melodia e ficou a ouvir os passos, as unhas raspando o assoalho da casa. Teve vontade de correr como o vento fizera mais tarde, mas e se fosse a resposta? E se fosse os números e os cômputos corretos, vindo até a sua direção? E se...
   _ Quem está aí? – disse tremendo, quase um suspiro.
   Cada vez mais perto se podia ouvir uma voz:
   _ É a resposta, minha querida.
   A voz rasgou seus ouvidos. Era grave, mas tênue.
   _ E qual é a resposta? – perguntou sutilmente.
   O silêncio. O medo. O passo. Agora podia ver. O mormaço quente beijou seu pescoço, dançando pela sala. Tudo parecia cera, derretia, escorria para o chão.
   _ A resposta está no seu coração. Basta lê-lo como você lê qualquer livro. Consegue?
   Ela estava atordoada e com medo, mas não tinha outra solução.
   _ Vou tentar.
   Ela fechou os olhos. Introspectivamente, começou a sentir o ar a sua volta, o suor em seu corpo, a garganta seca e o nariz queimando. Encontrou no fundo de um número um pouco apagado, uma nota fraca manchada com vinho tinto, refletindo no espelho uma frase.
   _ Vejo meu coração. – disse eufórica – Mas não consigo ler o que está escrito.
   A voz ríspida, os passos, o calor ficaram intensos. E uma unha comprida lhe entregou seus óculos.
   _ Tente com os óculos. – disse impacientemente.
   Ela pegou desconfiada. O que os óculos poderiam fazer?
   _ Consigo ler, mas não entendo o que diz. – disse chorando, e logo, a lágrima virou vapor.
   A casa já estava derretida e como cera, seu corpo começou a desfazer. O piano caiu desfeito no chão. O espelho se estilhaçou. Não existiam mais escadas.
   _ Ignorância sua, minha querida. Não há tempo. Sua córnea já se desfez. Quer que eu leia para você?
   Rapidamente respondeu:
   _ Claro, por favor!
   As unhas arrancaram sua camiseta cinza e rasgou seu peito. Retirou o coração e começou a lê-lo.
   _ Agora explique, por favor! – disse ela apavorada, sentindo seu sangue parar.
   O fogo consumia o que restava. E vagarosamente a voz disse a ela:
   _ Sou um dragão, querida. Não sei explicar seus medos nem posso fazer a escolha para você. E, além disso, odeio tapetes sujos de açafrão.
   Então, o dragão bateu as asas e voou atrás do vento. O fogo se apagou. Tudo parecia estar como antes. A casa um pouco suada, rubra, mas fora reconstituída.
   _ Dragões! São tão ignorantes. – e chegada a essa conclusão, ela pegou o seu coração e o colocou no lugar. Achou que estava bêbada e foi dormir.



Alline Corrêa Frazão - 27/07/12 – 20h22min.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Laços de uma não-família

Sobre escrever

Chuva torrencial de excrementos