Desperdício

Nota: Escrevi esse conto há alguns dias, mas só hoje decidi publicar. É hora de tirá-lo da gaveta. Antes que fique tão amarelado e que não seja possível lê-lo. Antes que eu o desperdice. Antes que eu me desperdice. Assim...





   Quando ela quebrou o espelho, encontrou cacos de si misturados aos reflexos da luz amarela do abajur. Enquanto calculava o desperdício ocorrido, viu-se com o dedo mindinho cortado. Amarelo mais vermelho. Sorriso alaranjado.
   Quantas vezes seriam necessárias esmigalhar as coisas à procura de respostas? Quantas perguntas seriam refletidas no absorto de uma voz refratada? Com quantas cores ela se pintaria em busca de uma única cor? Pobre coita*! A pior busca é aquela que não define um buscador. Até porque, cada retina enxerga uma cor indiferente e independente da luz solar.

   Agora, há mais coisas para se limpar. Os cacos azuis de seus pestanejos e os cortados rubros de seus dedos. Mas o tempo continua o mesmo. Ela se apressa. A falta de luz evidenciada pelo ascender* das lâmpadas dos apartamentos é anunciada como um grito de relógio. Na pressa, ela lança na lixeira violeta e arredondada os cacos maiores. Mas são os pequenos pedaços, são as migalhas, são os estilhaços espalhados por todo o quarto, devido à repentina queda do espelho, que trarão à tona o espinho na carne, a dor maior e o incômodo futuro. O dedo é protegido com um curativo descuidadamente colocado. Na hora do banho, o sabão trará a ardência necessária ao desconforto crepuscular de sua mente completamente cheia de complexas caixas probabilísticas de nada. No mundo dos mortos, quem encontra um vivo é feliz.

   Ela escovou os cabelos que, desta vez, se encolheram com tanta fúria. O pente era espesso na tentativa de poupar capilares. Esquecia-se, porém, de diminuir a temperatura do chuveiro que queimava as madeixas e transtornava as pontes de enxofre. No fim das contas, ela fez um rabo de cavalo. Mas esse pobre animal estava preso no estábulo. Escolheu um vestido preto básico de renda industrial. Sentiu-se um boto cor-de-rosa preso na rede de um pescador enfurecido. Por fim, foi fisgada por dois longos brincos. Apesar da cor, cheirava rosas. Cheirava rosas por fora.
   Por fim, escolheu as sapatilhas mais confortáveis que já havia comprado. Mas deixou algo na bolsa que fosse capaz de diminuir a dor que sentiria quando as fibras de couro sintético atritassem seu calcanhar, eletrizando-a por inteiro, fincando-a ao fio-terra de solado previamente feito contra escorregões. Posteriormente, escorregaria no óleo escapado do motor de seu carro. Prometeria levá-lo ao mecânico Fernando, mas se esqueceria disso quando parasse no primeiro sinaleiro vermelho. Novamente essa cor. Vermelha como quem para na vida e no tempo e que mesmo esperando por um sinal verde, não poderá concorrer com os que passam pelo cruzamento. Engolindo CO2 e CO. Não se espera algo de alguém pulmonarmente imbuído.

   E o que será feito da chaleira que ebulirá o café preto e harmonioso? Ela beberá antes de sair de casa, porque já é começo de noite e ela não pode dormir no trânsito. Ela também não pode beber sete xícaras de café em um dia, mas fez isso. Cheiro de rosa e cafeína. Está preparada para respirar cinza. Guarde a borra do café triturado para jogar fora depois, já que se esqueceu de por sacola nova na lixeira da cozinha. Ou jogue na pia, escorra-se miúda até o cano mais próximo, fazendo a curva, cercando-se de voltas. Entupirá o cano que desce para o apartamento de baixo. Silêncio e o sindico não saberá de nada. Aliás, a pia é sua e quem pia é o sujeito. Mulher, onde estão seus predicados?
   Chegará ao destino pretendido, mas se esquecerá do cartão em casa. De frente ao homem amado, terá que improvisar o pior discurso anti-cortes de dedos mindinhos. Mas ele irá rir, porque também a esperou em algum instante antecedente a este. O tempo andará mais rápido, porque de alguma forma, ela se encontrará mais cheia de átomos distribuídos quanticamente entre as camadas energéticas da caixa probabilística. Mas se esquecerá do erro, das incertezas que todos os arranjos e comutações trazem às calculadoras incertas. No fim, ele não estará ouvindo sua boca vermelha falando, falando... De novo essa cor. Ele a beijará.

   Ela será conduzida até a pista de dança. E quantas cores!!! E como o arco-íris baladesco*, ela porá cobertas em cima das incertezas. Mas se esquecerá de resolvê-las quando se deitar na sua cama, já tarde da madrugada. Não obstante, dançará 'Lets get it on' e o moço aprovará a escolha do vestido industrial que mata botos cor-de-rosa. Mas ela estará pensando no caco que se instalou entre seu dedão do pé e o seu vizinho. A noite acabará e o dia reinará dentro dela antes das 3h, que será quando ela voltará para casa no seu carro cuspidor de óleo petrolífero. Dormirá o resto das horas precedentes da aurora e acordará para fazer mais café. Serão oito xícaras dessa vez. Serão quatro artigos a mais. Serão mais papeis para menos tempo. Somente serão, porque ela não se preocupará com os porquês. Ela ainda é jovem e não descobriu que Cronos mora nas desculpas que damos a nós mesmos, nas perguntas engolidas e nas respostas não chegadas, nas xícaras de porcelana, na mecânica do Fernando, na música e no abraço apertado do amado. Ela só se lembrará de si mesma quando não tiver as lembranças do que poderia ser e acabaçar as memórias do que realmente foi.

   Talvez, ela se sinta ultrapassada, porque o corpo não carrega as marcas do futuro, mas as do passado. Diferentemente de sua mente refletida pela luz de abajur, quebrada por suas gavetas confusas e carapaças acumuladas. No fim das contas, ela não desperdiçou tempo nem espaço. Pois a vida não é monocromática. É como um brinquedo de criança que se desmancha em 1000 peças coloridas. Os quebra-cabeças são para a vida como as centopeias são para os pés. O medo maior é desperdiçar-se a si mesmo. É desperdiçar os outros. É desperdiçar os olhos que pintam para o céu um azul mais bonito.

Alline Corrêa Frazão - 22/07/14 - 2h29min.

* proposital.

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