Te valorizo

Nota: São dois pontos de vista totalmente distintos, mas unidos pelo tema central que nos une à maravilhosa música abaixo. É uma homenagem, evidente, que vai da literalidade ao humor negro de cada dia. E o nosso público-alvo, desta vez, se perfaz os nossos leitores e suas Jades e Tiês. Não podemos esquecer de dedicar esse fluxo às donas de nossa vida, às que geraram-nos entre os livros e os escritos. É nesses momentos que nós mantemos nossa força, em parte, porque temos alguém para nos manter. Feliz dia das mães!

Assista o vídeo clicando aqui!


Tiê-Feliz-Tiê?

   Clássica era a visão do tiê alçando voo. Em pleno ar, dava cambalhotas como se fosse à deusa Vênus, tecendo sua beleza nos olhos dos mortais. Como um retrato de fim de tarde, fazia a boca se encher de algodão doce ao sentir a brisa que rodava entre as nuvens ao vim beijar-lhe os lábios. Sem medo o tiê brincava no céu fazendo tanger a lira iluminadora dos sonhos alados.
   Certa vez, o tiê entrou na dança com seu par, e em meio aos lençóis pneumáticos, sentiu a dor e o prazer do sangue quente tecendo-lhe as veias. Os arrepios escorregadios e os gazeios rubros fizeram daquele voo uma explosão binária. O tiê ficou tão grave na gravidade. E há quem diga que o viu voar pesado por aí. Tão pesado que pousou, nas nuvens, o seu ar juvenil e, se esquecendo ali, assinou sua Carta Magna em prol do tênue bico que se pôs a piar dentro de si.
   Contudo, nunca pôde-se ver o tiê triste. Por vezes preocupado, mas não deixava de carregar o peso com certo ar de destreza. E aquilo foi ficando tão grande, mas tão grande, de tanto amor que fazia gerar em suas mitoses. As dores de seus ossos pneumáticos não tinham importância alguma a partir do momento que trazia consigo o prazer amniótico de se fazer vivo. E foi durante nove anos-luz aquela explosão estelar. Já não se podia contar os prantos que foram deixados nas nuvens, que passando, morriam nas serras. Mas tiê não se importava de voar longas distâncias. O que fosse preciso fazer, ali estaria seu bico destemido.
   E assim, tiê encontrou acalento em seus pesos ao empurrar para fora de si a sua felicidade maior. Suas penas amassadas e quebradas, seus olhos embaçados, suas perninhas enfraquecidas deram à luz, sua cor astral. E desde então, sabe-se que tiê trocou de asas com um anjo no meio de uma estrada roliça.
Pássaro Tiê Fêmea Maternal.


   _ Me vê duas asas de anjo, quentes e fofinhas, mas que sejam capazes de suportar grandes ventanias. Em troca, dou minhas únicas asas, das quais tanta ventania eu já suportei. Dou as únicas asas que tenho. - disse o tiê, sem penas na alma.
   E o anjo amigo entregou sem hesitar o que o tiê lhe pedia e disse sorrindo amareladamente:
   _ Vai dar luzes a outras asas e seja feliz.
   Foi o tiê. E de tanto caminhar, aprendeu que os pedregulhos do caminho eram suaves. E que a vida dá de presente na medida das asas. Aquele peso o tiê podia suportar.
   E ficou o tiê. As asas do anjo ficaram também. E na volta sempre espera pelos filhotes, que durante noites, viu embalar em seu ninho. Porque o tiê ainda trás no seu peito os pertences que deixou nas nuvens, as suas asas que deu aos anjos, a sua casa que trocou por outros lençóis, a sua dança em volta de Vênus e a dor que o fez renascer. Sabe o tiê que isso não se perde e que o que resta são gazeios submersos em amor-santo que sempre haverá para oferecer. O tiê ama o que é seu e há de amar até tiê-tiê...

Alline Corrêa Frazão – 10/05/2014

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Fogo de Jade

"Lugar mais bonito de passarinho ficar é palavra", observou Manoel à Jade na noite do nascimento de seus filhos. 

   Ela era casada com um homem milionário que não media esforços para conseguir o que quer. Ele calçava todos os dias seus cascos de bode velho e ia à caça de suas inocentes presas com sua razão e superioridade afloradas. Contudo, era um bom homem, muito íntegro e honesto. Jade, desde nova, vestiu-se de veneno e obsessão para conseguir conquistar seu matrimônio. Casou-se com o luxo, a riqueza e a ostentação e foi feliz.

   Engravidou e deu à luz a dois meninos que logo já eram o orgulho de toda a família. Apesar de toda a sua estrategicidade, Jade sempre cuidou muito bem de seus filhos e por motivos que não importam sempre os fez brilhar, tornando-os implacáveis em suas ações. Nutriu os garotos com vitelo da mais pura e rara geleia real e envolveu-os com uma grossa camada de líquido amniótico. Fechou-os da sociedade e quis prendê-los debaixo de seus pés. Amor demais. Essa foi a sua ruína. Toda a sua dureza exterior escondia um ser frágil e inseguro que tinha ataques de ciúmes. Primeiro com o marido. Depois com os filhos. Até que um dia enciumou-se da vida, mas desta, não teria nada além do que já fora concedido. Só lhe restara estar debaixo de uma lápide.

Femme Fetal de FernandoVicente [clique aqui]
   O marido a abandonou. Os filhos o fizeram alguns anos depois. E nossa belíssima e imponente Jade ficou à mercê do casarão em que vivia. Sozinha, nem um animal conseguia ter. Estava sempre cercada de empregados que lustravam tudo, menos a sua alma. Ela foi se escondendo em si mesma. Quisera eu dizer que ela teve o que merece. Não. Só foi mal compreendida. Nunca conseguiu evoluir e desvencilhar-se de seu carma. Carente e sem a atenção de ninguém, sua chama foi diminuída ao relento. Ela só queria sentir um toque manso de carinho. Ouvir e guardar segredos. Receber amor.

   Numa tarde qualquer, os filhos abriram a porta e entraram. Chegaram com flores para presenteá-la. E a vida voltou a seu rosto. Ela sentiu-se valorizada e nunca estivera tão bem debaixo daquelas roupas elegantes de inverno. Comeram um banquete. Chamaram amigos e compartilharam de sua alegria. Viu também os netos que não conhecera.

   Mas tudo se interrompeu quando as portas novamente se abriram e todos saíram. Saíam dela e de sua mansão. Voltava a seu vazio e à sua solidão. Mal ela podia esperar para que se um dia quisessem sentir sua presença de novo, visitassem-na. Enquanto isso, olhava lentamente o fogo queimar madeira na lareira. Fogo que queria ser apagado. E o vento cortava tudo o que via lá fora. Inclusive o coração de Jade que já se encontrava sob nova sutura.

Matheus Castilho

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