Maria da Penha sem pena



Nota: Vocês, leitores, devem ter percebido que esse tipo de assunto e a forma como gosto de falar dele é uma obra recorrente no Blog. Só que para mim é sempre um frisson escrever assim. É algo libertador, eu diria. A música eu conheci por meio de Alex Sens. Não o conhecem? Deviam! Blog: clique aqui.




   Olhe o céu, meu amado. Estou rindo. Pode ver meu sorriso, ou seus olhos estão embaçados por algum colírio do inferno?
   A campina está verde, porque tem chovido muito ultimamente, se não o fosse, estaria seca, rachada, poeirada. Entende? Pode enxergar isso?
   Eu estou tranquila, amor, mesmo com meu vestido rasgado e sujo. Apesar do seu sorriso, posso ver seu imbróglio. E tenho mais alguma coisa a dizer, apesar de perceber que seus ouvidos estão encharcados de tudo o que você poderia ter feito para salvar seu sorriso. Eu vou fazer brócolis no jantar, só porque você odeia. E também, porque eu amo brócolis e desde que você entrou em minha vida, não tem me deixado ir à feira comprar meu verdinho.
   Há um mundo todo lá fora e, mesmo respirando dióxido de carbono e chovendo algo de sulfúrico, eu precisava flanar minha vida por aí. Longe de ser aquele argumento pueril de “eu não sou tua propriedade” é mais uma questão jurídica: comunhão de bens. A propriedade é de nós dois.
   Eu estou tranquila, repito, há algo de novo em curar feridas velhas. O remédio nem sempre é o mesmo. Na medida, que você cava e estonteia é necessário um remédio melhor. Nada genérico. E o que você tem contra as farmácias? Porque eu não consigo encontrar o meu bálsamo-marido depois que vieram os cânceres-possessivos. E eu tenho medo de perder o sano-amor.
   Lembra-se do casal de periquitos australianos de nossa filha? O Homo morreu depois que a Sufocada fugiu pela portinhola da gaiola. Pobrezinho, não pôde suportar os ventos de saudade contorcida de remorso. E o que restou foi nossa filha em preto e branco. E pelo que eu sei de lutos, a próxima escala é a do cinza.
   Ah! Tenho que lhe contar que comecei a (re)ler o romance ‘As meninas’ da Lygia. E isso é a prova de que a vida é engraçada como uma ostra sem pérola. Foi o livro que você me deu no nosso primeiro mês de namoro. Vou relê-lo para ver se eu não entendi errado.
   Ei! Onde você está? Oh, sim! Assistindo TV. Credo! Uma ‘neo’ PANdemia de Marias sem pena? Só que nos faltava. Venha que o brócolis está pronto.

Alline Corrêa Frazão – 11/03/14 às 20h57min.

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