Porque as pessoas morrem



Nota: falar por falar. Da época em que eu ainda tinha força para protestar. Seja lá o que for. Entendam a ingenuidade. Obrigada!



 Nós somos dentes-de-leão.
 O vento sopra e leva várias partes de nós.
 Uma rosa carregada pela água de um rio escuro.
 E os espinhos dela somos nós.
 Um copo de vidro cai
 Derramando toda a sua raiva no chão.
 E a raiva, meu amigo, é um fragmento de nós.

 Tudo o que seremos é a lembrança de um amigo
 Ou o choro de um emotivo
 Em um breve momento.
 E o que resta de nós é o reflexo de um sorriso num espelho quebrado.

 Somos um retrato falado.
 E quem fala é o retrato.
 Somos uma estante vazia.
 Encostada na parede.
 Um anúncio de supermercado
 A promoção do dia.
 Somos a etiqueta, a marca e a agonia.
 A tempestade num copo d’água.
 O petróleo suado,
 O peito rasgado,
 E a poesia quase viva
 Respirada pelos cantos.
 Somos o operário cansado
 O dinheiro no bolso amassado
 A vitrola do século passado
 E a queda da bastilha
 A lira dos vinte anos
 E os beijos roubados
 A xerox da cópia
 E a ópera!

 Eu só estou cantando o concreto
 O fechar dos olhos e o veto 
  Por que as pessoas morrem?
...
 
  Porque as pessoas nascem.


Alline Corrêa Frazão - alguns anos atrás. 

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