O dia das goiabas

Nota: Não se trata de um texto guloso. É uma conversa entre amigos, certo? Boa leitura!


Foto encontrada no link: Aqui.

   Há coisas que prendemos tanto com as mãos, apertamos tão forte com os dedos, que mesmo sentindo cansaço ou dor nos punhos, não deixamos de engaiolar tais sonhos voadores. Se não abrimos mão nem por libertação, imagine a nossa reação quando esses pássaros enfunilam por funil abaixo? Engenhosas são as almas que usam filtro para separar nuvens passageiras de propostas de granizo.
   Acho que a trajetória humana é como a de um projétil. Tem uma partida, um gatilho, com o propósito de chegar a um alvo. Isso, do alvo, somente cada um de nós sabemos. E simplesmente, a vida consta de uma sucessão de movimentos, colisões, atritos e gatilhos. Esses movimentos, ou melhor, o fragmento desses movimentos, eu costumo chamar de dia. As colisões são os obstáculos. O atrito é o inevitável. E os gatilhos, eu chamo de você. Sim! Você. Pra cada engenhoca há um engenheiro. E se ele não estiver disposto a engenhar, adeus empreendedorismo. (Em) fim.
   Embaindo minhas últimas inconstâncias, a minha sucessão de controvérsias e engatinhando minhas promessas de alcançar meu alvo, deixar de ser um enfermiço, chegando inteira e sem muitas doenças, sai com minha vozinha. Fomos marcar um exame no SUS e tivemos uma sorte danada. Conseguimos marcar e FAZER. O que representa um avanço descomunal. Percebi minha sorte, prefiro chamar de minha graça, quando fitei o lindo sorriso sutil no rosto da minha vovó. É incrível como coisas pequenas, mas bem feitas, nos deixam tão felizes. Ficamos olhando para os grandes monumentos, tentando descobrir quem projetou ou construiu uma pirâmide e, por vezes, nos esquecemos de observar as obras de nossos engenhos. Talvez aquele carrinho que arrasta um imenso carnê; o olhar do filho ao conseguir desenhar o pai com palitinhos; os pulos inatos dos cachorros enquanto dormem; um dia de sol comum; o simples fato de não estar doente... segredam inumeráveis mistérios e alegrias. Enfurecer por causa dos momentos, as frações de segundos é enfadonho. Quase que como agir com perfídia. E de mesmo modo, não vale enfunar por causa das glórias, retesando a humildade em troca desse envaidecer efêmero. O jeito é engajar-se em viver e isso consiste em viver dignamente.  Sem fraudes e fraudas. Porque do ‘a’ para o ‘e’ é um pulo.
   Enganchei uma conversa, mas tudo o que queria dizer é que comemos goiabas. Quando saímos do hospital, tinha um feirante vendendo frutas fresquinhas. Meus olhos viram meu estômago ranger como sempre e eu surrei, segurando as mãos da vó:
   _ Vovó, olhe aquelas goiabas! Como estão lindas! – imagine meus olhos de Capitu, mas sem ressaca e dissimulação, só fome mesmo.
   _ Faz tempo que não comemos goiabas, desde que a goiabeira lá de casa morreu. Quando sua tia ainda era viva. – dizia tentando ajeitar os óculos, não para ver as goiabas, mas provavelmente para avistar um passado distante. – Você quer filha?
   _ Só se você comer comigo. – um pretexto para fazê-la comer, nem tanto Alline, estava com fome também.
   Compramos cinco goiabas, enormes, brilhantes e fomos comendo até chegar a um compartimento público, onde eu precisava resolver algumas pendências burocráticas de universitária. Voltamos para casa, satisfeitas, levando duas goiabas para minha mãe:
   _ Você só comeu goiabas até agora? Está louca? Seu estômago... – disse, mas me amando, como sempre fez/faz.
   O dia das goiabas foi um pretexto para fazer fraseologias, dizer franquezas que brotam do meu coração. E dizer que, apesar das burocracias inerentes do Brasil e apesar da nossa sorte/graça, eu tive um dia maravilhoso. Estar com vovó e vê-la feliz foi como chegar ao ponto mirado. Certeiramente, alcançar o frenesi de ser amada e de fazer uma pessoa amar. Combinamos de sair mais vezes, pois agora ela quer que eu a acompanhe mais. Eu não vou recusar. A gente não recusa conquistas e nem felicidade.
   E agora, que alcancei o alvo, mirei com destreza e encontrei a frequência exata de um momento, devo parar de lançar projéteis? Pois não, sonoramente negativo. Existe um fremir uníssono de parar depois de não ver possíveis alvos ou de cumprir o fato do dia. Mas é tudo frêmito, rumores de ruminantes. Amanhã surgirão novos projéteis que deveram ser executados com fragor, apesar de termos em nossas mãos armas tão franzinas e suscetíveis a erros. Porque nem o melhor engenheiro pôde se privar dos erros. Alguns tomam grandes proporções, mas outros nos ensinam a escolher melhor nossas armas matinais. Armas no sentido aristotélico da história. Armas de fogo machucam. As armas que me refiro são brandas e nada haver com desamor (não quero desaire). E enfim, fazemos dos nossos dias, um gatilho constante de alinho, encontrando as obras faraônicas de cada dia, não necessariamente tão imortais e gigantescas assim. Faraônicas, porque fazem de um pequeno momento o desabrochar de nossas almas e dos sorrisos, tirando o fato das colisões e até mesmo dos atritos. Se for pra parar, por resistência ou hesitação, se é pra chegar a algum lugar, que se prefira o melhor lugar. E se amanhã não tivermos o poder do gatilho nas mãos?
    Deliciosas goiabas.


Alline Corrêa Frazão – 21/02/14 às 20h11min.

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