A mulher de Vincent Van Gogh

Nota: Pra saber mais sobre Van Gogh e sua beleza, encontrei (Projeto Loving Vincent) um artigo/vídeo surpreendente. Para ver clique aqui. 

Doze Girassóis numa Jarra - 1888.

Dedicado à Mônica Serpa, com amor (a quem me introduziu a arte).

--------------------------------------------------------------------




   Arte é lembrança. Arte é o resquício, o rastro de tinta a óleo, o diário pessoal da alma humana. Sem parecer existencialista, mas sabendo que sou, concebo arte como as partes que já foram tão completamente minhas e que, hoje, talvez não sejam tão completas assim. É tão divino pensar que o homem com tantas limitações psicológicas, físicas e emocionais (e talvez, justamente por essas limitações), pôde criar algo tão perfeita em sua subsistência. Perdendo orelhas ou não, as mãos reinam na história inacabada que somos nós.

Noite estrelada - 1889.


   Escolhi Van Gogh, não só pelo motivo visível: a escuridão, melancolia, sofrimento poético desse poeta pintor. É que eu consigo ver algo de dual, como a própria luz na obra, quanto tão relativo os amores, a ponto de me encontrar em inexpressível em cada gota de tinta, em cada centímetro de tela pintada. Sou assim: relativa, morna, equilibrada. Como em “Noite Estrelada”, a terra respira singela e taciturna sobre as dores do ser humano, sobre o medo da inconstância, porém iluminada pelos vários Sois/Estrelas que encontramos nos longos caminhos impermeáveis de sonhos ao longo da vida. Estrelas que às vezes não conseguem iluminar a vida, mas jazem em um momento feliz de esperança no túmulo do que já conseguimos ser, sem muito esforço. Bom ou ruim, dual. É o que vejo. E a beleza da arte-vida é que meus leitores veem coisas diferentes. É isso que me emociona.

O Grito - 1893.


  Agora peguem “O grito”, obra clássica, e observem. Eu era o humanoide gritando tangenciado pela escuridão do não conhecimento racional e emocional da vida. E essa luz amarelo-alaranjada que desceu pela minha cabeça e me encheu de espanto, mas que me iluminou com esplendor, chama-se Mônica Serpa. Uso Van Gogh como pretexto/meio para chegar a essa obra-prima ainda maior. Porque ela é arte. E são as pessoas que fazem a arte ser ainda mais importante. Eterna professora.
   Teatro, arte, cerâmica. O que mais Mônica podia fazer? Ela era meu Van Gogh. Quando eu entrava naquela sala colorida e cheirando a tinta e imaginação, eu não era mais a tímida e gritante menininha que era devorada pela escuridão da soberba massa de saber o necessário. Ela entrou em minha vida como uma farpa, que vai penetrando a carne, doendo os nervinhos e incomodando. Ela foi um mestre que me educou com chicote.

  Como eu não tive a pertinência de arrancar a minha orelha e digo isso, no sentido metafórico (é melhor, deixar claro), porque todo grande escritor-poeta-pintor e assim vai, tem que perder algo, nem que seja uma orelha interior; Mônica teve o prazer de me apresentar à plateia, ao anonimato do público; apresentou minhas mãos ao grafite inato e sôfrego. Ela pintou minha alma. Com as próprias mãos.
   Ela é a mulher que pinta o portão com destreza, desenha rosas e beija-flores. Alegra a vizinhança. Usa sapatos altos durante o dia para dar aula, mas mantém seu curto cabelo em sua forma natural. Ela encena perfeitamente, como um cisne em uma lagoa, no palco. Mas ali está ela, humilde e real, diante de seus olhos, tentando ensinar o traço mais preciso, o grito mais aterrorizante. Não sei dizer se ela conseguiu, mas se não, com certeza não foi culpa dela. Alunos e enfados.
   A verdade, é que estou sendo expressionista. E proposital também. É que Van Gogh rouba a fé das despreocupações. Ele restabelece os eixos justamente pela desordem. Ele cria o junco dos beiços pela desunião das moléculas. Ele é ela. Mônica (Ser)pa.

O Campo de trigo com corvos - 1890.

   Assim, vejo o final da vida como “Wheat Field with crows”. Foi quase morto que Vincent retratou melhor a quase morte. Na velhice, o real, apesar das inconstâncias dores (e nisso, eu gosto de culpar as proteínas), é brilhante e unitário. Não que eu ache que ele tenha vivido muito, pelo contrário, mas o final parece ser assim. É de um amarelo quente e alegre, entre a vivacidade do verde, das folhas que respiram fotossintetizantes, o marrom-avermelhado da terra que o trouxe a vida. Tem a lua esfumaçada, por causa da pouca vista, mas que trás luz ao campo de centeio. E o ponto final, como um nebuloso céu azul, tempestuoso e molhado, com seus interstícios branquinhos de uma eterna paz. E é ali, entre o azul e o amarelo, entre o não e o sim, entre a plateia e o palco, entre o grafite e a borracha que os pássaros da imaginação (ou seria do coração?) tomam as asas da alvorada. Podem ser corvos de Edgar A. Poe, mas podem ser a fênix. Ou podem ser Mônica libertando os passarinhos da gaiola. Obrigada!


Alline Corrêa Frazão – 05/02/14 às 18h35min.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Laços de uma não-família

Sobre escrever

Chuva torrencial de excrementos