Sua saudade (dengue hemorrágica)

Nota: A página social vem com o intuito de ligar esse pássaro à suas raízes. Sim! Pássaros também pousam no chão. Ainda mais quando precisamos tomar umas gotas de água ou remover poeira das asas. E o primeiro tema, tão repentino, me veio como chuva. Mas como dor também. Boa leitura!





   _ Sente-se aqui, filho!
   _ Pode dizer pai!
   _ Eu estou muito quente?
   _ Um pouco, pai!
   Quente e vermelho. Taciturno e arredio. Os olhos se cansam de ver lâmpadas no teto. Ainda mais, a mesma lâmpada de hospital.
   Aquele senhor foi pego de surpresa talvez por uma tampa de garrafa pet ou um vaso de flores sem areia. Sem por, nem ser, dor abdonimal doentia que encontrava na alma um motivo. Motivo para estar ali, porque essa dor excomungada era prova de que ainda estava vivo. Vivo em letargia e lentamente carregado pelo tempo argiloso para um buraco frio.
   Ao lado da cama estavam os aparelhos, silenciosos e brilhantes, penetrando em seu pulso rápido e tênue. E desse pulso, estendia um sonho simples de ter a chance de levantar e continuar a vida, ou melhor, a vida de forma diferente. Vida sem hepatomegalia dolorosa, sem aquela gelidez na mão. Mas tinha algo que o motivava a abrir os olhos. A mão quente do filho se apoiando sobre seus dedos, atenciosa e certeira, como se tivesse células para pensar.
   _ Tenho medo de lhe perder, pai!
   O senhor apenas sorriu, lembrando-se de como seu filho, agora crescido, aprendeu a andar. Aquela vez que caiu do balanço e correu até a barra da sua calça, com os olhos e o bumbum vermelho. Aquele menino que ficou horas e horas estudando calado no quarto, dizendo que o seu sofrimento chegaria ao fim. O rapaz cheio de espinhas que, uma vez, ameaçou fugir de casa. Sim, o mesmo senhor que suou anos para dar o melhor para seu filho, suado agora, em seus delírios febris.
   _ Se o senhor for, o que será de mim, da mamãe e da maninha?
   Aquela mulher, doce mulher, que o prendeu em suas asas frondosas. A mulher que ele escolheu, ou foi escolhido, para encontrar um alento no findar do dia. Ela que acalentou seus sonhos, provou-lhe o mel, chorou-lhe as feridas e cavoucou-lhe a terra ácida avançada na caixa da aliança. Mulher que aguentou toda a pressão dos dias, aos apitos de uma panela de pressão e agora, sombria por uma hipotensão arterial. Ela chora lá fora?
   _ Pai, por que você está fechando os olhos? Pai! Pai!
   A menininha estava cantando na sala de estar. Rodava como um pião entre os sofás. Voltava pulando para o seu colo, pedindo um abraço, ou fazendo uma pergunta. Quem diria que veria aquela menininha crescer, florescer entre os cravos e se tornar a flor mais bela do jardim. Quem vigiaria os ataques noturnos?
   _ Pai! – em grito sublime. Em choro salgado. Em saudade-vida.
   Os aparelhos, não mais em silêncio, repousam sobre o pulso ainda mais frio. O filho, empurrado da sala pelas pernas trêmulas e a boca gritando por socorro, sem saber para quem pedir. Um mosquito voando lá fora, mordendo a moça que comprava pão na padaria. A filha  respirando flores, em coroas. A mulher sozinha no quarto. E o menino... O menino sem pai.
   A saudade é uma cadeira de balanço vazia, é um momento feliz à mesa, é o natal em família, as broncas e as lágrimas, o suor e a casa, o pai e o filho. Ela é tão clichê, quanto única. Ninguém, jamais, soube afastá-la. E saudade de quem se ama, não vai embora como os pássaros vão. É escolher a gaiola mais segura e limpa, sem medo de se soltar. É agradar o inevitável e esperar. Esperar que se calasse. Esperar que se vivesse. Esperar que alguém viesse lhe abraçar.
   _ A saudade é sua e é minha também. – disse o filho no funeral.

Alline Corrêa Frazão – 30/01/14 às 19h14min.

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