V-IDA

Nota: Aos que sofrem do coração...
Fotos de Rafal Makiela (para mim, uma simulação dentro do útero).


   E só de pensar por um instante que aquilo era o fim... Só de pensar que entrariam no meu quarto e... Mexeriam nas minhas roupas dobradas e amarrotadas? Tirariam meus livros da estante? Guardariam meu teclado naquela capa preta e fria? Levariam meu rádio retro para outro lugar? Colocariam minha gaita numa gaveta e empoeirados ficariam meus papeis na escrivaninha? E meus desenhos inacabados apodreceriam no inato? Minha velha caixinha de música tocaria outra vez, enquanto a bailarina, sutilmente, dançaria pela tampa aberta? Saberiam abrir minha cortina azul emperrada ou organizar as almofadas na cama? O senhor da rua vizinha teria outra amiga para ouvi-lo contar as mesmas histórias? E os meus tênis sujos seriam finalmente lavados? Quem organizaria minhas partituras caso o vento as soprasse novamente para debaixo da cama? O que meus amigos fariam com os rascunhos de cálculo que ficaram para trás? Como ficariam meus cachorros sem as brincadeiras, as corridas, as mordidas e os afagos? E minha amada família, quanto tempo demoraria em voltar a sorrir?
    Fui me enchendo aos poucos de tantas perguntas, enquanto percebia instável, meu coração travar. Olhava para minha amiga, olhava para o teto e vomitava uma indagação ferida. Em silêncio, porque ela não merecia ouvir isso. Pensei em como mancharia a vida dela se morresse ali... Naquele instante. Enquanto isso, meu coração descia e subia montanhas, passando em cima de rochas e buracos. E a minha plateia aumentava.
    A vida é como um refluxo. Pode voltar pela válvula atrial e lhe sufocar as veias. Assim, do nada. Talvez, depois de um delicioso bolo de cenoura com cobertura de chocolate, depois de dar gargalhadas ao lado da sua amiga incrivelmente única. Sim, antes de dar adeus a um amor calado. Antes de continuar sua vida agitada e frenética. Cedo ou tarde. Tarde ou não. E a morte? Nem quero saber. Hoje o discurso é sobre a vida.
   Vou lhes contar um segredo. Lembro-me perfeitamente quando nadava naquele líquido quentinho e viscoso. Sentia a balada de minha mãe flanando pela casa. Tentando cozinhar macarrão. Era gostoso ficar ali, tremendo de vez em quando meus dedinhos gordos, talvez cutucar o cordão... Chutar minha mãe, como nunca mais fiz na vida. Do líquido formoso, eu ouvia as ondas das músicas do meu pai refratarem pela bolsa. Eu enchia os ouvidos para sentir sua voz alegre e melosa. Aquela sensação, leitor, eu não esqueço. E foi exatamente dessa forma que me senti, quando percebi meu coração parar por instantes.
    Não é muito diferente. É como se estivesse nascendo novamente. Aquele olhar de espanto para o mundo, para o teto. Aquele respirar leve e quente, fazendo o médico bater em meu bumbum, só porque não chorava. Sim, depois chorei. Não como quem se arrepende de voltar ao mundo, mas como quem reclama: “Quem deu autoridade ao senhor para bater no meu bumbum?!”. Da semelhante forma, como me deparei com o coração em vale e levei uma massagem nas mãos. Doeu, porque minhas mãos estavam emperradas. E o choro ao levar um tapa do coração foi de alegria.
    Por isso, vida. Nasci novamente. Com a válvula do coração meio torcida, mas nasci com vontade de tecer meus dias, como uma moça tecelã sábia e delicada. Revivi com vontade de compor minha vida, como uma sinfonia, há muito, sonhada. Refazê-la, como um químico cuidadoso refaz suas reações. Porque a vida é um refluxo. Eu sou um (re) fluxo.
    E há algo ainda maior. Ver a vida nos olhos daqueles que lhe olham viva. E o amor, claro. Sem ele, nem respirando estaria. Quem o diga, meus pais! Porque no fundo, leitor querido, é só disso que você precisa. Ah! E lógico, um coração que aguente tudo isso também. Amém.

Alline Corrêa Frazão – 3/12/2013 = 22h52min

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