Chuillie, um refrigerador de 1950 no presente

Nota: Desta vez, a base é o curta "Chuillie, um refrigerador de 1950 no presente". E mais uma vez, nos juntamos e construímos as 3 visões que se desenrolam logo a seguir. Partimos com lembranças, buscamos um amor, ou quem sabe a aceitação. Por que? Por que somos ultrapassados? Talvez, seja isso que a sociedade tem pregado há um tempo, mas rebeldes que somos, não deixaremos de buscar. Por mais que o amor seja dor, ou liberdade, ou indefinição, é um sentimento puro e único. Mas há também o engano. Então, por meio desse fluxo (in)fixo, perguntamos à vocês, leitores queridos: seja fugindo, seja descobrindo, vocês já encontraram um lar? E são aceitos como vocês são? Vocês são amados e amam? Runaway? Boa leitura.




   AmoDOr


   Ninguém vai embora
   Sem que o amor de inato,
   Não se aflora.
   Ninguém sente a dor
   Sem que a faca em ato,
   Arranque a flor.
   Um olhar de desejo,
   Com cor ou sem por,
   Que se faz ensejo.
   Um não achar-se devolvido
   Em ato de desamasso
   Ou de caso mal resolvido.
   Por acaso algum dia me viste andar por aí,
   Caminhando sem pés, como uma geladeira velha,
   Com lágrimas de gelo aqui e ali?
   Peregrinando feita a Terra em um espaço,
   Com medo de um escalímetro,
   Fugindo de seu compasso?
   Pois é, amor!
   Eu estive pensando em um tudo cheio de nada.
   Pois é, que dor!
   Mas ninguém volta para casa
   Sem calor ou concatenada,
   Como um pássaro voando sem asa.
   Ninguém sente o amor,
   Quando não acredita que com ele,
   O sol jamais irá se por.

Alline Corrêa Frazão – 08/12/2013 21h03min.

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   Sob o Cinza


   Junto à melancolia de domingo, ela decidiu ir. Simples assim, levantou-se e se foi.
    Na verdade, não foi tão simples assim e a melancolia estava mais adentro dela, do que propriamente no “domingo”. Sob o céu cinza, ela escrevia sua canção “ I'll write my loneliness in poems, If I can just think how to start”.
   Oh Deus, sim ela era completa por esse fluxo do contra, quem vai entender se nem ela entende, mas seguia sem pestanejar nesse sentido de mão única, porém com muitos fins.
   Enfim, ela caminhava como se estivesse se direcionando para algo inadiável, no entanto seus passos eram a tradução da calmaria. Caminhava como se o dia não chegasse ao fim, como se aquele exato momento perdurasse por anos, simplesmente, sem fim... e “ I'll write my loneliness in poems, If I can just think how to start”.
   Era encantador admirá-la, realmente era o seu dia. E seu teorema não resumia no seu perambular ou domingo ser seu dia favorito.  Havia algo naquele olhar, naquele sorriso... olhar triste, olhar perdido, olhar sem fixo... sorriso irônico, irônico sorriso.
   Essa pequena menina mulher partiu, o porquê ninguém sabe ao certo, uns dizem que foi à procura de uma ocupação, outros de um grande amor, dizem também que ela estava fugindo. Talvez, não seja nada disso ou apenas talvez, seja um embolo disso.
   Apenas sei que ela repetia constantemente, “I'll write my loneliness in poems, If I can just think how to start”, haveria um dia em que partiria atrás de grandes aventuras.
   Sussurrei a ela a sua loucura, a sutileza de seus grandes olhos negros saltitou de seus lábios: “loucura seria se eu permanecesse aqui”.
   A verdade é que tentar se encontrar nunca haverá de ser loucura, difícil é morrer de loucura, a cada dia, por não ter se orientado na direção daquele sorriso irônico sob o céu “ I'll write my loneliness in poems, If I can just think how to start”.

Jéssica Pamplona 

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   Gelada existência azul


   Palavras vêm-me na madrugada. Madrugada quente, sufocante e infernal. A insônia me acompanhava. Insistia em lembrar-me de que a noite não é para dormir. O negro da noite preenchia os espaços. Rebolava suavemente e criava formas estranhas. Quem sente isso tudo? Não sei. Na verdade leitores, as palavras quase nunca dizem nada sozinhas. Nós é que dizemos por elas. Por que escrever isso? Sinceramente, não tenho ideia. Mas o mais curioso disso tudo é que a lua dormia, enquanto meus pensamentos me fritavam. Só que do nada eu me senti estranho. Senti-me estranhamente imenso. Ia crescendo. O mundo pareceu que caberia em mim. Eu era uma geladeira. Refrigerador e geladeira são sinônimos. Mas eu prefiro ser uma geladeira. Eu era daquelas poluidoras mesmo. Estava cheio de CFC em meu interior. Azul, espaçoso, imenso. Talvez fosse o céu. Eu abri as portas. E tudo poderia habitar em mim. A geladeira é o habitat natural da fragilidade. Ela é uma mãe. Eu era um pai ou uma mãe? Não importa. A função grita mais forte do que o significado. Dizem que os sentimentos são úmidos e calorosos. Mas veja a geladeira. Quando eu abri as portas, saiu um ar congelante. Seco, muito árido. Frio cortante. E apesar de tudo, ele era aconchegante. Eu era aconchegante. Proteger tudo o que me fosse ordenado. Ordens de quem? Do meu fabricante desconhecido. Azul, muito azul. Às vezes um azul bem desbotado. Outras vezes um azul-turquesa. Raramente um espetáculo. Tudo entrava em mim. Eu estava vazio, por isso eles entravam. E naquela consciência expansiva, os braços sempre estarão abertos. Poderia ser substituído por uma mais moderna? JAMAIS! Porque o que importa é a memória. O passado não diz nada. A memória diz. Os dias vividos juntos. A existência siamesa. E a poluição? Está sob controle. Desde que não a firam, a geladeira nunca liberará seus gases. O consumo do novo não vem sem necessidade. Será que se é possível entender algo nesta vida? Acredito que não. Nem na próxima, se esta existir gelada.

Matheus Castilho.

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