(Des)afogar

Nota: Este texto dou às minhas leitoras, às minhas queridas leitoras, às minha queridas. Com carinho.





   Há coisas que não precisam ser ditas. Basta um olhar. Mas dessa vez, o seu silêncio foi maior. Aliás, qual foi à última vez que você soltou alguma palavra?
   Se você quiser saber, meu bem, hoje eu acordei muito cedo. Tive aquele sonho estranho novamente e você não estava aqui para me confortar. Não em espírito. Eu fui para a cozinha fazer seu café, peguei seu uniforme e me certifiquei de que você não estava esquecendo nada. Você sempre esquece alguma coisa. Você sempre me esquece.
    Quando isso começou a acontecer? Sempre aconteceu. Porém, só pude enxergar agora, agora que meus olhos precisam de lentes. Pois a mocidade é um nevoeiro sombrio, um cais vazio e um farol apagado. Nessa época, gaviões viram belas borboletas, um mar profundo vira coragem, um amor vira calmaria. Lembra-se do meu sorriso bobo, dos meus lábios frouxos de quando você surgia pela janela? Não os tenho mais no rosto. Até porque, quem cultiva as flores do jardim sou eu. Você não trouxe mais rosas para casa.
    E mesmo assim, seu jantar estará na mesa. Mesmo assim, você vai comer como quem come angu de fubá frente a uma picanha bem-assada. Com amargura, você vai beber aquele suco de uva que tanto gosta.
   Não sabe você, ou sabe que eu fiz de tudo para dar certo, mas nos enfiamos, aos poucos, nesse mar de rotina, de ondas-lágrimas, de abandonos-nados. Você ainda usa o paletó que lhe dei no dia do seu aniversário e eu ainda visto o meu vestido azul, mas isso é solitude-vã. Por mais que ainda ame o seu jeito de rir e a forma como troca as folhas quando ler o jornal, eu não posso continuar com a mesma face que me rejeita. É como chorar na chuva. Você já não sabe distinguir a minha dor.
    Amor, queria poder entender sua lassitude e seu descaso. Queria poder trocar sua casmurrice por doçura, mas não o posso fazer dessa forma como deseja. Não posso rastejar até o próximo cais em busca de remédio, se meus joelhos doem. E você sabe que eu faria se pudesse. É que já jaz em mim tanta joia de rubro sofrimento, que não posso me dar ao luxo de me lastimar outra vez. Vou fazer café quente de novo.
    Bem-amado ser que me convive, existe algo que serpenteia pela cozinha e suja de indiferença essa vida. Há algo que deita na nossa cama e passa os nossos lençóis frios. Existe algo que esquenta nosso café forte, algo que salga seu travesseiro e adoça sua chegada. Essa coisa estranha que me dá medo e que ameaça destruir aquilo que construímos há muito tempo. Aquilo que deixamos inconclusos: nossa vida. E essa coisa, bem, essa coisa sou eu.
   Por isso, eu vou atrás do toque de Midas, do beijo do vento e do abraço da felicidade com minhas próprias pernas. Se quiser vir comigo, seja bem-vindo. Se não, bem-te-vi. Só não se esqueça de pegar seus sapatos na varanda, antes de vir. Lavei-os tanto, que acho que dessa vez, ficaram brancos como queria. Se achar alguma dor perdida no caminho, devolva-me. Deve ser minha. E se ver alguma pegada suja no tapete, faça o favor de limpar por mim. Estarei lá fora, beijando-flor, beija-flor.

Alline Corrêa Frazão – 17/11/13 – 22h58min

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Laços de uma não-família

Sobre escrever

Chuva torrencial de excrementos