Crônica de vermelho

Nota: Quase por pseudônimo, mas vai assim mesmo...






   Ele andava distraído, olhando para os lados com rapidez. Pernas compridas e esguias mal comportavam a leveza do seu ser. Ou o peso do que carregava nas costas. Quase corria, ao redor da rotina e ao badalar do tempo em suas cordas vocais. Ele não sabia dançar. Mas quem precisa? Basta entrar na roda e se sentir um pássaro com uma asa pequena (que seja) capaz de voar.
   Piscava rápido esse personagem incerto e desconhecido, submetido às intempéries da vida. Seus olhos castanhos claros piscavam como luzes de natal. Parecidos com mel de abelha cobrindo uma colmeia. Quantas abelhas havia ali, não se sabia. Na verdade, não se sabe quase nada. Sabe-se que sua voz é macia, mas muito embromada. De tanta areia que existia em sua garganta, de tanta quinquilharia. Talvez, nem ele mesmo sabia que tinha tanto o que falar. Apesar de falar muito. Falar... Digo falar, naquele sentido especial, de desabafo. Porque querendo ou não, o homem é uma coisa (e aqui, cabe bem esse coisamento) peculiar. É menor que um Bóson de Higgs, mas tem o multiverso dentro do peito. E carregar isso, custa muito ao coração. Não é por acaso, que um dia ele para. De R-E-P-E-N-T-E.
    Não dá para negar, que o mistério lhe coube às vértebras. Coube tão bem, que a (pseudo) escritora não sabe se pode descrevê-lo assim. De tentativas faz-se uma vida. Ou uma lida. Linda como uma árvore cantada pelos pingos da chuva. E por esse caminho, nosso protagonista andou, cobrindo-se dos poucos pingos de chuva que caíam do céu. As árvores deram passagem e ele (a) voado flanou pelo corredor. Até...
    Que não pude vê-lo mais. Até que o foco ficou tão longe de minhas retinas, que ficou impossível distinguir imagem. E não falemos de imagem por hoje. Tive péssimas experiências com imagens vetoriais. Foquemos no enfoque, no passo apressado, no canto dos pássaros, nas árvores que pestanejam os macacos pulando seus galhos. O céu cinza de chuva, o seu vermelho rosto, isso são coisas (mais um coisamento) efêmeras e melódicas. Ao mesmo tempo, que pode ser um belo solo de guitarra, pode ser uma sinfonia em órgão original ou pode ser um grito de cigarra. Como disse, não dá para separar. O homem, quando quer guardar segredo, esconde até os próprios dentes.
    E é isso. Somente isso que queria contar hoje ao leitor peregrino. Conto meias vistas e cotas de um transeunte apressado e estático que não vai falar, que não vai ver, que não vai ouvir, que vai dançar desajeitado. Por que eu sei disso? Respondam-me. Guardo o céu no meu bolso esquerdo e muita coisa eu tenho amassado nesses dois átrios. No entanto, tem coisas que são como vetores em um espaço de quatro dimensões. Está no papel. Mas eu não consigo imaginar. E nem vou. Não é só de imagens que se faz uma vida. E nem só de pingos de chuva.
    E quanto ao pássaro? Bom, esse ainda está guardado em seu ninho, protegido do vento e do frio. Porque aprender a voar nunca foi garantia de sucesso. Vai quebrar a asa, vai esborrachar o bico, ou vai ser devorado por um gavião. Quem sabe um dia, segue vivo lá. Lá... Lá onde você sabe. Ou não. Agora, darei descanso a minha vista. Tudo está vermelho, como se o dia tivesse vergonha de mim. E talvez tenha. Devia ter voado juntamente com o homem que passou de R-E-P-E-N-T-E.

Alline Corrêa Frazão – 23h13min – 05/11/13.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Laços de uma não-família

Sobre escrever

Chuva torrencial de excrementos