Amélie como Amélia

Nota: há tempos que recebi a proposta da idealizadora deste blog para escrever sobre um filme que me marcou muito. Depois de muita relutância e reflexão, lembrei-me de O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN. Aqui no Brasil, nem é um filme tão conhecido assim. Mas tenho certeza de que os leitores estrangeiros, principalmente os franceses, hão de concordar que é uma obra belíssima. Quem sabe não conseguimos encontrar a nossa essência naquele filme? Eu juro que mudei muito depois das vezes que assisti. Porque a vida é assim mesmo: ela nos pega pelas mãos e toma caminhos tortuosos e sem rumo. Mas quando damos por nós, já estamos a trilhar estradas maravilhosas e aconchegantes e dificilmente poderíamos retornar.



   Amélie, Amélie, Amélie...
   Ouvi de longe este nome. E só o que poderia ficar seriam aqueles cabelos cortados Channel e os olhos bem negros. A pele branca e o rosto de porcelana. Porque esta mulher foi tão marcante? Difícil dizer. Sei apenas que me reconheci nela de uma maneira tão natural, que dá até medo. E entre ruas parisienses, vi claramente uma mosca califorídea bater milhões de vezes por segundo suas asas frágeis. Por onde ela andava? Seguia a voz que sussurrava Amélie? Também não tenho respostas.

   E nessa frequência de milhões de Hertz, o relógio murmurava para alcançar o pico. 20:00h; 20:20:33; 20:41:55... ia assim frenético, mas com muita preguiça. Olhava as almofadas no colchão. Só queriam o sono. Um sono profundo, que jamais acordasse. Um sono transformador, feito metamorfose de artrópode. Algo tão libertador que pudesse até criar um mundo paralelo. Realidade, pura realidade. Fronteiras tênues que jamais podem se unir, porém nunca se separarão.

   A amiga califorídea continuava voando...planando...boiando...voando. Roçava o chão pedregoso e nada de Amélie. Encarava bem os atendentes de bancas de revistas. Fazia questão de quebrar a casca do crème brûlée mais requintado dos cafés da França. Até mesmo quase veio a óbito por experimentar da fumaça dos chás alheios. Mas nada mudou. Tudo continuava inócuo e fixo. E até mesmo o alaranjado forte do pôr-do-sol daquele outono mais quente do que o usual transformou-se em ternura e formosura. Os detalhes das asas eram tão explícitos que me veio à lembrança as asas de Ícaro. Estavam prestes a derreter? Acho que não. Pareciam frágeis, mas eram mais fortes do que aço.

   Mas Amélie sempre esteve lá. Estava em todos os lugares. Em todos os países. Em todo o mundo. Ela caminha docemente acompanhada de seu Nino. O senhor Duffayel também continua pintando os seus quadros em algum quartinho por aí. Venham Gauguin, Cézanne e Van Gogh. Encham os potes de tinta. Manchem a tela branca com sua arte. Duffayel só guiará o pincel e nossa mosquinha estará na janela contemplando. Talvez ela esteja mais interessada na torta de framboesas que esfria ao vento. Mas com certeza os estará observando. E calmamente, o cotidiano vai sendo retratado. Quadros que mostram o mundo exterior e as aventuras de Amélie. Amélie sem rosto, sem identidade. Sem lenço e sem documento. Só Amélie...Amélia. Que rasga a opressão e põe fogo na calcinha. E perambula por tantas mentes e por tantos corações!

   Ah! Não poderia esquecer do nosso amigo anão-de-jardim. Viajou por tantos lugares. Será que conseguiu encontrar-se? O pai de Amélie parece que sim. Viajou e voou como um pássaro a caminho de reviver o que não foi vivido. E no passado, ficaram apenas as inseguranças, os diagnósticos errados e a morte dos sentimentos que renasceriam. Enterrou-se o afeto em busca de redenção. Ela só foi alcançada posteriormente com a própria realidade de si mesmo. Estou no mundo. Mas não sei aonde vou. Continuo seguindo e surpreendo-me a cada tropeço e a cada escorregão.

   E entre orgasmos nossa menina-moça-mulher, esgueira-se sorrateiramente pelo solo. Pega a sua bicicleta. Pedala bem fundo. E vai às compras do pão de todo dia. Claro o pão bem francês. Que croca quando é apertado. Mas o aperto tem de ter leveza. Deve-se ouvir um barulho contínuo que apalpa carinhosamente os tímpanos. Deve-se também comprar outros ingredientes. E para certificar-se de que o dia não foi perdido, deve-se enfiar a mão vagarosamente nos sacos de grãos e sentir sua textura. Necessita-se também de se bagunçar tudo. Trocar certezas de lugar. Só depois é que se limpa e que se arruma os estragos. É uma tarefa diária, mas Amélie já a executa com perfeição. 

   E paralelamente aos horários preestabelecidos, a mosca voa astuta. Sente o vento na cara. Analisa bem a temperatura ambiente. Foge de possíveis predadores e arranja muita comida para o bucho. Assenta-se sobre uma superfície segura. Pode ser uma amendoeira. Pode ser uma mangueira. Pode até mesmo ser um cacto. Pode também ser algum monumento, como a Torre Eiffel ou alguma obra de Niemeyer. O que interessa mesmo é um local de descanso e de paz. Paz para a alma e para o espírito. Paz com Deus. Paz consigo mesma. E a califorídea sabe que no outro dia tudo se inicia. Tudo sempre igual, mas não do mesmo jeito. E eu consigo apenas pensar em uma coisa: o que fazer com toda esta pressa ansiosa?
 
Matheus Castilho - 06/11/2013

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