Marca-Passo

Nota: Esse também é antigo e também é um conto. Ele é meio denso, porque quando o escrevi estava com um turbilhão de ideias. Lembro-me que estava sentada no chão do colégio, no primeiro andar, olhando uma chuva fina que caía lentamente. E ouvia música também, mas não me lembro qual. Só sei que sentia muita dor e que tinha um papel e minha velha e boa lapiseira. Escrevi. Percebam a sonoridade e o duplo sentido que crio em todo o texto. E mais uma coisa: eu era a mulher.
Elena Oganesya.
----------------------------------------------------------------------
      O céu estava chorando. Escorria uma lágrima fina e inconstante. As nuvens se despediam despidas do hidratado agora.
      Tinha uma mulher. E as lágrimas a molhavam. A chuva a inundava. Mas ninguém parava de andar nas ruas, todos se esqueciam de pular seu corpo caído no chão. As pessoas estavam gritando e sorrindo, flanando nas calçadas molhadas. Porém dentro dela havia bolhas tão imensuráveis, que de sua boca escorria espuma. Todos olhavam e deixavam de olhar à medida que a imobilidade dela abria suas glândulas lacrimais.
      Existe o céu. E a terra coexiste entre o universo e o nada. Os pés falham e deixam todo o corpo cair. Assim, ela percebeu que seu corpo estava jogado no universo e dentro escorria vácuo. Portanto havia terra entre ela e o chão, da qual sua boca foi obrigada a beijar. Terra, talvez, um pouco inane, mas cheia de lava.
      As nuvens jogavam baldes de água ácida em pessoas baldias. Era a ilha de Calipso em colapso, porque o coração estava fraco. Do braço, a corda se estendia até a ponta dos dedos e puxava-a. Para o céu? Ela não tinha Coliseu, mas tinha véu. O véu estava rasgado e o sol nublado. Seu corpo prostrado no seu olhar arado se predispôs a sobre-erguer-se. Mas as pessoas ainda pisavam nas suas costelas, despedaçando as suas pétalas. O céu ainda chorava. Ela não. Ela não era geofágica. Talvez um pouco mágica. E ainda estava aspirando o ar, aspirando ao escrever. Levantou-se. Os pés estavam certos de que marcariam o passo. A cabeça sôfrega carregaria a inundação do vácuo. Não fazia sentido continuar nadando no barro. Não era gênese. Era o êxodo. Deixaria o chão na caixa.
       Cai chão no pithos da inania verba  gritou ela no universo e as nuvens assustadas deixaram de chorar – Porque se hoje o sol está cansado amanhã ele estará muito quente. Cabe ao ser quebrantado olhar o sol com olhos arados e entender que o sol é barroco, que se perde no realismo e no naturalismo do intemperismo da vida. Nós somos arcaicos e românticos. E por isso somos modernos e cheios de ite(n)s e (feudal)ismos.
      Os pássaros revoavam para o céu. Ela arrastando-se com o olhar seguro falou para os pássaros.
       A minha mão é o meu coração. Se ele parar de bater...
       Marca-passo. Marca-passo. Marca-passo.  piaram os pássaros silenciosa(mente).


Alline Corrêa Frazão – 09/10/2012 às 14h30min.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Laços de uma não-família

Sobre escrever

Chuva torrencial de excrementos