Memória é peixe, palavra é rio

Nota: Não venham me dizer que é uma crônica triste, pois eu choro de alegria.

"Que rostos mais coalhados, nossos rostos adolescentes em volta daquela mesa: o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinos graves marcando as horas [...]".

_ Lavoura Arcaica, Raduan Nassar.



                Não gosto de sirenes, principalmente, se vierem acompanhadas de uma luz vermelha intermitente. E hoje no trânsito havia duas delas: o IML e uma ambulância. Um corpo na outra margem do rio e um corpo na ponte. Um corpo real e um quase corpo. O frio e a febre. Pois é... e o rio nem é tão largo assim.
                Isso me fez lembrar vovô, na madrugada de febre, da maca branca e das luzes vermelhas intermitentes. Eu estava no canto esquerdo do muro, encostada na parede e com muito frio. É o mesmo frio que sinto agora – a cidade está coberta de uma daquelas frentes frias vindas do Atlântico. É como aquela noite, só que mais clara e simples, sem borrões e estilhaços.
                Mas por que me lembro dessa noite, logo dessa noite, em um dia comum e bonito, numa manhã calma e transparente? Não seria mais agradável me lembrar dos gritos, de quanto eu acordava com vovó falando com vovô? Ou de todas as vezes que eu chegava à sua casa e o via na cadeira verde de cordas, debaixo da mangueira, meio sorriso e balanço, camisa desabotoada e chinelos trocados? Por que, afinal, vovô deixou essa última lembrança e escondeu todas as outras? Por que eu nunca digo adeus? E você, vovô, por acaso já disse?
                Não! Hoje é um dia diferente. Eu sonhei com ele, o mesmo sonho de anos atrás. Meu quarto, sua cadeira, nosso balanço. “Eu tenho muito orgulho de você”, mas eu não queria ouvir isso. “Vem cá que eu te ensino a fazer isso direito”, ele podia dizer. Mas para todas as formas de diálogos possíveis, a última palavra sempre seria a minha. Na minha memória, vovô é o sol quente de uma manhã feliz, sem luzes intermitentes, somente o sol, constante e rigoroso. Não há encostos e paredes na minha memória, nem um quase adeus. A última palavra é minha e ele sabia qual era.
                E se há algo que me tranquiliza quando penso em vovô, como essa cidade acordada, fervente como ontem – e como amanhã, com certeza – é que ele soube minha última palavra, mesmo que eu não tenha tido tempo de dizer. Palavra é rio. Palavra é rio que escorre silencioso e abundante. No meio de toda essa água, a memória regozija-se com os grandes pescados e, não, com os anzóis arrebentados pela correnteza. É muita água! Deve chover amanhã.
                                                                                                                                                    

Alline Corrêa Frazão – 06/05/17 – 08h04min.

Comentários