Distopia

Nota: Não existem pretensões nessa crônica demodè. Acho que o coração basta.


                E então seus olhos se abrem. No seu sorriso, o meu lar amarelo. Seu braço insustentavelmente leve em volta dos meus ombros tensos e pesados.
Meus olhos se enlaçam. No meu sorriso, a sua melhor piada. Meu abraço incansavelmente apertado em volta da sua cintura quente e macia.
Não haveria rimas em minhas frases rebuscadas nem versos nos seus palavrões. Não existiria distância entre nossas cadeiras nem tempo em nossos relógios.
Só. Eu. Só. Você.
Cada discordância em nossas cabeças seriam concordâncias em nossos corações. Cada desordem em nossos corações seriam ações organizadas. Do caos, a matéria. A matéria em paz.
A sua entropia seria minha energia. Meu combustível seria seu comburente. Não haveria mistérios escancarados nem silêncios contidos. E o medo? O medo seria uma estrela a anos-luz da nossa casa. O amor? O amor, o nosso sol mais quente. Nossos filhos. Nossas plantas. Nossos cachorros. Nossas músicas. Nossos jantares. Tudo, exatamente tudo, seria exato e trivial. Nossa vida seria uma superfície de revolução.
Mas... Ah, puxa! Não existem nós. Seus olhos estão atados. Seus braços estão amarrados. Não existem palavras nem matéria. Nada seu. Logo, nada meu. Em mim, apenas você: minha distopia secreta.


Alline Corrêa Frazão – 11/05/17 – 17h37min.

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