Não há nada de novo

Nota: Vinicius de Moraes dizia que "É preciso um bocado de tristeza para se fazer um samba com beleza". E essa crônica foi feita com um bocado de tristeza. Depois de tê-la escrito, comecei a ouvir Noturna (Silva e Marisa Monte). E essa música, por um instante, pareceu ter sido feita para essa crônica. É bom pra não pensar em nada, sabe?




                Não houve grito algum. O silêncio era possuidor dos sinais. O adeus era sinônimo de um até logo duvidoso e incomum. Nada mais seria como antes. Ela sabia.
Quando você percebe que já tem um passado, quando toca uma música que já foi sua ou quando vê uma foto em que você já esteve presente, você assina seu eterno presente, intransponível e transpassado pelas pessoas e músicas futuras. A partir daí, todos os cálculos serão diferentes, apesar de ser possível obter um mesmo resultado; todos os encontros serão irregulares, mesmo com hora e local marcados, porque, ainda que as pessoas não sejam desconhecidas, mas também nada se pode dizer sobre as mudanças e as novas rugas desenhadas no rosto; e os vícios também serão iguais, mas ninguém mais se dará conta deles, porque tudo é passado, independente do passado ser presente. Somente os resfriados serão os mesmos, os analgésicos serão os mesmos, o dinheiro será o mesmo, os telefonemas serão os mesmos e as livrarias também. Sem nenhuma restrição. Iguais. Intactos. E é isso que trará a sensação de que o futuro já é instante e que as coisas poderão mudar.
Não de um dia para o outro dia.
Não de um abraço em outro abraço.
Não de um peixe em outro peixe.
E não houve grito algum. Você vai se lembrar disso quando você perceber que já tem um passado. O silêncio possuidor de todos os sinais será a música que já foi sua. O adeus serão as fotos em que você já esteve presente. E tudo será como antes.
Sim, de um dia para o outro dia.
Sim, de um abraço em outro abraço.
Sim, de um peixe em outro peixe.
E quando você percebe que os experimentos quase nunca compartilham bons resultados com a teoria, ou que o trânsito sempre tem tráfego, e até que as contas devem ser pagas sempre no mesmo dia, você descobre que há juros em todos os olhares. Então, você chora e pede que tudo mude, mas a sua imunidade cai e você fica resfriada. Os mesmos resfriados que serão sempre os mesmos e os mesmos analgésicos e o mesmo dinheiro e os mesmos telefonemas:
_ Você está melhor?
Talvez, de um dia para o outro dia.
Talvez, de um abraço em outro abraço.
Talvez, de um peixe em outro peixe.
E ela que sou eu – você sabe – estará na mesma livraria. Talvez, alguma coisa seja igual. Mas isso, ela não pode saber.


Alline Corrêa Frazão – 14/04/17 às 16h49min.

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