Por um triz sol

Nota: este texto começa como termina: sem nenhuma reverência ou comemoração. Até porque ciclos não possuem começos, nem finais. Apenas a velha repetição, disfarçada de algumas diferenças, mas com resultados parecidos. O que quero dizer é que não existe nenhum motivo para se comemorar o Dia Internacional da Mulher. Mulheres não possuem nenhum privilégio nesta sociedade. Seria a comemoração por estarem vivas ou apenas ter passado mais um dia sem serem estupradas? Opa! Elas são, né? Então não há motivo para comemorar. Fizeram este dia para nunca esquecer. Pelo visto sempre se esqueceram e mesmo hoje ainda fingem não ver, fingem não lembrar.

As costureiras - Marques de Oliveira (1853-1927).


Caía uma chuva fria e fina, que adelgaçava as estruturas pelo toque, nas telhas da casa de uma família. Chuva final de inverno, trazida pelos peixes navegantes, já esperançosos pela cabeçada floral e morna do carneiro. A chuva assustou-se com o grito de Maria e se retirou. Assim que o primeiro raio luminoso apareceu entre as nuvens, ouviu-se um choro alto, vigoroso e contínuo de uma criança. Maria, já sem forças, olhou para o marido e disse:
- Vamos chamá-la de Alice?
- Chame-a como quiser, retrucou um homem barbudo e de olhar distante, com voz indiferente e vazia.
Maria ordenou a Alice que parasse de chorar, afinal as dores do romper do rebento já passaram. Pobre Maria. Pobre Alice. Nem mesmo a ilusão consegue disfarçar a visceralidade da carne e do sangue. Era um dia de sol. Mas Alice cresceu muda. Lágrimas apenas nos seios que ainda não se formaram e olhos brilhantes e bem grandes para tudo que fosse novo.
Alice tentou falar. Só Deus sabe como tentou! Mas não havia tempo para as falas de Alice dentro da rotina da família. Ela tinha um irmão mais velho. Sempre que o irmão saía para a escola, a menina sentia imensa vontade de arrancar as trancas da porta e correr atrás do garoto.
- Alice, seu pai e eu já tivemos essa conversa com você. Não é adequado a uma moça de família estudar. Somos pobres, mas somos muito honrados. Disse a mãe.
- Mãe, eu quero aprender a ler! Suplicava Alice.
E um estrondo horrível impactou a face de Alice, levantando fervura na menina. Ela virou-se e estava lá o pai que acabara de chegar do trabalho. A conversa sobre as letras irritou o homem. Seriam incompatíveis as letras escritas ou mesmo as palavras faladas por Alice aos ouvidos dele? Difícil reconhecer, afinal eram bem ignorantes, mas muito honrados, como dissera Maria.
Era um dia de sol. Alice já estava por volta dos seus 14 anos. Como de costume, bordava um lindo vestido que estava fazendo já algum tempo. Seria presente para os seus 15 anos? Algo do gênero, o pai havia lhe prometido. Um vestido, apenas um vestido. Maria interrompeu a penitência das agulhas da menina e pediu a ela que fosse à venda da esquina comprar pão e leite. Como de costume, obedeceu e foi às compras. Era um dia de sol, mas já quase entardecendo. Alice se distraiu conversando com o filho do dono da venda e quando deu por si, já era noite.
Voltando a casa, percebeu um vulto a seguindo. Parava e se escondia. Voltava a seguir. Alice não teve nada de bom. Os tecidos que a cobriam enrubesceram de mortalha e pratearam-se de lua cheia, que por acaso do destino, não olhou por ela. Arrastou-se e conseguiu tocar a porta. Foi recebida pelo pai com um olhar sombrio. A mãe estava pintada com dois roxos orbiculares. O olhar sombrio do pai transpirava um litro de cerveja. Alice mais nada viu naquele momento. Apenas sentiu os socos do pai e ouvia os gritos dele direcionados a Maria: - quem agora quererá casar com esta imunda? Você se vire, Maria! Recupere a honra de Alice. Somos pobres, mas somos muito honrados. E passou-se um mês, o homem morreu de algum ataque de nervos na fábrica, disseram os colegas.
Maria decidiu casar Alice. O irmão mais velho de Alice havia se mudado para outra cidade e Maria não tinha mais como se sustentar. Souberam que um homem barrigudo e de mais idade acabara de se mudar para o bairro em que elas moravam. Era viúvo e estava à procura de uma esposa. Dizia ter rendas consideráveis. E pronto, engraçou-se por Alice e trouxe suas madeixas para sua casa, levando Maria para morar com eles.
O tempo passava e Alice sempre aos pés da fertilidade, dava à luz meninas. Sempre meninas, nunca meninos. O marido estava cada vez mais atolado em dívidas e mulheres, enquanto Alice continuava a parir, sempre costurando, limpando e passando, mas nunca vivendo. Maria perdia luz todos os dias e cada vez mais era abraçada pelo negro da noite, até que um dia partiu. E logo em seguida, acharam o marido de Alice morto em um beco.
Alice se viu em desespero. Não tinha dinheiro, os bancos tomaram todos os bens que o marido lhe deixara. As filhas eram muitas. Precisava se candidatar. Encontrou emprego na fábrica de seu pai, que agora contratava mulheres. Trabalhou, manchou sua pele de carvão. Pingou suor em cada produto que fazia e ainda costurava. Sempre costurava. Mesmo com tanto trabalho, os dias ainda eram de sol. Estava sempre de sol.
E foi exatamente num dia de sol, que Alice se juntou a outras mulheres, porque não conseguia mais sujar-se tanto, enquanto a luz estava lá fora. O ar? Os céus? Os pássaros? Pássaros estão em gaiolas? Onde estão as chaves, chefe? Todas bradaram. Pois neste dia de muito sol, o chefe trancou todos os portões com as operárias dentro. E disse:
- Vocês gostam tanto do calor, não é mesmo? Pois tragam o sol a elas!
O sol queimou-as. Incinerava e não se ouvia nada. Afinal, Alice cresceu muda. Nem mesmo na barbárie conseguia emitir uma única voz. Será que eles conseguem cortar as pregas vocais de um passarinho? Porque as asas já cortam. E o vestido? Alice jamais usara o vestido. Nem mesmo na morte, teve algum gosto e usar o vestido que costurava há anos. E mesmo assim, 100 anos depois, ainda trazem flores e chocolates à sepultura de Alice para que se lembrem do dia em que ela foi silenciada para sempre. Como se isso fosse motivo de comemoração ou uma dádiva recebida dos céus. A verdade é que mesmo hoje, Alice ainda chora e queima. Alice ainda sente.


Matheus Castilho – 08/03/17.

Comentários