Dreadnought, Virginias

Nota: Para todas as minhas leitoras, um humilde texto e um beijo da Woolf.



                É difícil falar sobre Virginia Woolf. Eventualmente, nem Quentin Bell, sobrinho de Woolf, pudesse exprimir, mesmo com todas as informações que tinha a seu dispor, quem era Virginia. Talvez nem ela mesma soubesse. Woolf não era como um dicionário, simplificada, concisa e exata. Era mais como um caderno de poesia, manchado e encharcado por uma chuva torrencial de lágrimas.
                Se frígida, não importava! A quem afetava o “ela era”, se não a ela mesma? Toda aquela chuva de nuvem-Woolf, apesar de molhar tantos transeuntes, ocorria de suas entranhas, correndo para uma época em que tudo o que não era sol, não era considerado estrela. Mas quem limitaria um ano a uma única estação, se tantos eram os dias ensolarados?
                Sol e chuva? Chuva e sol? Virginia e Virginias. A consciência que presidia o fluxo de normalidade. A mulher que era de Bloomsbury e que era Bloom. A mulher? O lobo bipolar.
                Nas mãos de Woolf, a sociedade escancarou as carrancas, despiu o manto fraterno da verbosidade, sem papas na língua – e muita língua, na verdade. A irmandade rasgou os panos e mostrou as ancas, sem seios e sem liberdade. No farol, um rosto de Orlando.
                Entre os atos, “Uma mulher deve ter dinheiro e um teto todo seu se ela quiser escrever ficção". E se ela quiser ser engenheira, médica, diretora, cantora, dona de casa... Se ela quiser, deve construir sua própria casa, esconder suas janelas e trancar seus átrios. O mundo ainda não está preparado para conhecer uma mulher, Virginia. E o contemporâneo nunca foi tão vintage.
                Você, amada Woolf, subsidiada pelo enredo do povo, de embusteiros trajados de nação em navios de falsa misericórdia, também soube vestir seu traje – não o abissínio – mas o de onda, tão onda, tão habitada por água. Fale Virginia, ainda que morta, ainda que violada, ainda que eterna e insustentável, que todas as mulheres deste mundo não devem temer ao seio pungente da liberdade, à boca fina de igualdade e aos olhos marejados de glória.


Alline Corrêa Frazão – 08/03/17 – 23h40min.

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