Cedo, a noite vem

Nota: Essa crônica eu escrevi pensando em cada um dos leitores que passam por esta página. Uma parte de mim também a recebeu.

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FAN HO

Acordar cedo, antes do alvorecer, também tem suas vantagens. Ver o Sol se esgueirando pelo horizonte, tímido e com sono, cobrindo os edifícios com seu calor, trás – ou quem sabe, leva – a sensação do eu-só. O eu desacompanhado de promessas, mas nutrido de planejamentos, chaves, carteiras e documentos.
            Eu-pó diante de extensas avenidas, ainda vazias, com os semáforos a intercalar as cores. Vermelho. Em breve, a avenida desaparecerá por debaixo de pneus desgastados e o semáforo será apenas um artifício que, amarelado, distancia a liberdade dos eu's.
            Até as calçadas, com seus meios-fios brancos, separam o vazio do silêncio, numa linha tênue entre os acasos e os bocejos. Ainda que agora, o tempo não exista na dimensão dos que dormem, em breve, a cidade acordará, acenderá as luzes e os edifícios dançarão na penumbra da aurora cinzenta da manhã urbana. Eu-nó sem pedestres nas calçadas, sem crianças pulando o meio-fio, sem adultos caminhando para o trabalho, sem os idosos andando até a padaria e sem nós-nó no espaço imenso entre uma quadra e outra. O tempo, sem preguiça, mas com os olhos sonolentos, corre nu pelo asfalto.
            Mas há vantagem! Meu eu jura! Esse silêncio sujo realça o barulho imenso que ecoa no meu crânio, o barulho ordenado e sonoro das letras e dos sinais. E esse vazio asfáltico mostra que há sempre algum espaço para ordenar nas gavetas lotadas, que se fecham atrás da boca e se abrem diante dos olhos. Vocês não? Vai! Retira o que não serve mais. Armazena o que não pode ser descartado. Esbanja o que há de gente e o que há de maior entre as janelas não abertas e os postes ligados. Porque logo, o dia se levanta na cidade. O dia desperta o tempo. Tempo que corre, aparentemente, de quem tem sempre pressa. Pois logo, em instantes, já será noite. E que a noite, a noite que vem cedo, traga eu-sol a todos que, porventura, acordarão amanhã.


Alline Corrêa Frazão – 18/02/2017 às 7:27 PM.