O que aconteceu?

Nota: Nesse conto, todas as respostas para a pergunta título. A minha resposta é diferente da de cada pessoa que ler esse texto. As nossas perguntas também não são as mesmas. Nós não somos os mesmos. Mas nós estamos juntos. Feliz 2017!

Chelsea Smile - Bring Me The Horizon.



                _ E o rio é sempre o mesmo. É sempre o mesmo rio. A água é que é sempre diferente.
                _ Porventura, o fato da água não ser a mesma, não faz diferente também o rio?
                Quando olho para as águas passadas e me lembro das remadas que já dei, me lembro de você em todos os lugares, me fazendo questionar os peixes que consigo tocar. Não é sem motivos que tenho encontrado respostas para suas perguntas retóricas... Você sempre me leva até o fundo do rio, eu me afogo porque tenho medo e me esqueço de bater os braços, volto à superfície expirando água e você sorri para mim.
                _ Mas as margens do rio são sempre as mesmas.
                _ É só a água do rio que é diferente, não é mesmo?
                Então, eu subo na nossa jangada de madeira, sentindo o pulmão pesado e o coração cansado. Olho para o céu e o sol brilha quase branco. O céu está branco. É tão branco e tão frio, minhas pernas dependuradas não cabem na jangada, meus braços estão amarrados nos remos. O sol não esquenta mais. Mas você está ali - calado e tranquilo. Você carrega o calor que o mundo perdeu no seu colo.
                _ O fundo do rio também era o mesmo. Era sujo e tinha a mesma grande pedra que, um dia, quase nos fez afundar.
                _ É... E a água é diferente?
                De forma abrupta, um mosquito enorme pica minha mão e não consegue encontrar sangue. Ele percorre todo o meu braço até encontrar uma veia farta. Você olha. Eu penso que deve existir um pedaço de madeira inteiro, um pedaço inteiro entalado na minha garganta, mas é em vão. Eu durmo. Você ri.
                O som da sua risada afasta de mim qualquer pesadelo e qualquer sonho. É um instante silencioso dentro da minha cabeça, momento raro e casto, no qual nada consegue perturbar a ordem e a mudança da ordem. Tanto tempo eu permaneço, até despertar sem quentura do lado de um grande relógio. O relógio de um pescador. Quanto tempo eu não sonhei? Como dói essa entranha rasgada e desmembrada que range perto do meu umbigo. Meu umbigo! Quem cortou o meu único umbigo? Eu nadava entre os peixes no mesmo rio, no mesmo rio de água diferente, não é mesmo? Onde está ele? Onde está Ele?
                O que aconteceu? Você se lembra? Esta é a história...
                O pescador, olhando meu desespero, chorou. Deu-me seu relógio e partiu sem vara de pescar. Deixou para trás, todos os peixes que havia depositado na cesta, todos os anzóis que havia comprado, toda a rede que havia tecido. Deixou-me só com um relógio antigo.
                Por muito tempo, permaneci, ainda, a observar o rio. O medo de voltar para a jangada, o medo de voltar, era tamanho. Fiquei. Até que muitos outros remadores vieram e me carregaram até minha velha jangada de madeira. Aos poucos, voltei a remar, com picadas de mosquitos vermelhos e entranhas doloridas. Minha pressa andava devagar, minha ansiedade respirava calma, meu amor sofria feliz.
                Ainda nesse rio, tropecei em várias pedras, quase virei minha jangada várias vezes. Mas nada me afligia mais do que ele. Nada me atormentava mais do que Ele. Onde estava ele? Onde está Ele?
                Um dia, olhei para o céu, um pouco mais azulado, e perguntei, mesmo sabendo a resposta:
                _ Os peixes são os mesmos?
                Silêncio. Vazio não, mas silêncio. Você nada disse. Então, eu olhei para o meu reflexo no rio e me assustei. Tomada de temor, percebi nas águas que não eram as mesmas, que eu também não era mais a mesma. Eu via o reflexo de alguém muito diferente daquilo que conhecia. E desesperada, gritei três vezes para o sol:
                _ A jangada é a mesma! A jangada é a mesma! A jangada é a mesma! 
                Barulho. Ao passo que eu conseguia reconhecer as águas do passado, os cortes que passaram, os peixes que morreram e o remo remendado, eu também conhecia as novas águas e tudo o que elas traziam – inclusive minha jangada velha de madeira. Então me senti tão quente e firme. Eu era diferente como a água que corria e redemoinhava entre as pedras. E assim, sem medo, pulei de novo no rio. Nadei, lembrei-me de bater os braços e sorri. Olhei as margens, tateei o fundo e girei com os peixes. Era um estalo de renov(ação). Confessei:
                _ A água não é a mesma – e ri como uma criança – a água não é a mesma!
                Então, olhando para outra margem do rio, percebi você rindo, feliz e realizado. Você se levantou e mostrou o peixe que havia pescado. Ei pescador! Você, meu pescador, me ouviu dizer, agora, gargalhando:
                _ A água não é a mesma! – e você me adivinhou.
                _ Então, o que posso dizer do rio?

Alline Corrêa Frazão – 27/12/16 – 23h35min.