Postagens

Mostrando postagens de 2017

Hálito de vício

Imagem
Nota: Eu não queria ter sido tão sensacionalista... Mas, às vezes, é necessário.



Dentro da sua mochila existe um hábito  Que, aos poucos, corrompe seus passos.  Eu vejo na fumaça do seu hálito O monstro que você trás em seu encalço. 
Dentro do seu bolso existe uma bala Que deflagra os resquícios Da munição que você carrega em suas mãos suadas E do cheiro de pólvora do seu vício. 
Fora do seu coração existe uma mentira Proferida por palavras e espasmos.  Mas os seus pulmões inspiram a ira Que as suas veias transportaram em silenciosos pleonasmos. 
Dentro das suas tentativas existe um alívio Que é a recompensa que paga seus erros.  Mas você sabe que o caminho é o convívio  E que o futuro é sombra do passado e presente de ferro.
Mas suplente Espírito no lugar da sua falta.
Porque a sua verdade não cala seus pigarros  Nem seus alvéolos perdoam o seu esconderijo.  Porque um peito escurecido pelos cigarros Jamais pode encontrar regozijo. 

Alline Corrêa Frazão – 28/07/17 – às 01h10.

Gira SOL

Imagem
Nota: E "Jamais o sol vê a sombra" (Leonardo da Vinci).



                _ Como você está hoje?                 _ Eu não sei dizer. Se eu pudesse exteriorizar o que estou sentindo com uma metáfora... Quero dizer, não existe uma palavra para descrever o meu estado hoje. Mas eu posso tentar com uma metáfora, pode ser? Ok. Bem, imagine que você está de férias em uma cidade muito charmosa. É verão e todos os hotéis estão lotados de famílias e amigos. Você conseguiu fazer uma reserva e comprar uma passagem – que não foi muito barata, mas o plano estava dentro do seu orçamento. Você chegou de madrugada no hotel e decidiu aproveitar esse tempo, já que a cidade ainda está acordada em um turbilhão de eventos. Então, você deixa sua bagagem na cama do hotel, separando apenas um lençol e algumas frutas e salgadinhos que trouxe para a viagem, a sua câmera fotográfica e o celular e decide assistir o nascer do sol na praia. Hospedado próximo ao mar, resolve ir caminhando até a praia, escolh…

Distopia

Imagem
Nota: Não existem pretensões nessa crônica demodè. Acho que o coração basta.


                E então seus olhos se abrem. No seu sorriso, o meu lar amarelo. Seu braço insustentavelmente leve em volta dos meus ombros tensos e pesados. Meus olhos se enlaçam. No meu sorriso, a sua melhor piada. Meu abraço incansavelmente apertado em volta da sua cintura quente e macia. Não haveria rimas em minhas frases rebuscadas nem versos nos seus palavrões. Não existiria distância entre nossas cadeiras nem tempo em nossos relógios. Só. Eu. Só. Você. Cada discordância em nossas cabeças seriam concordâncias em nossos corações. Cada desordem em nossos corações seriam ações organizadas. Do caos, a matéria. A matéria em paz. A sua entropia seria minha energia. Meu combustível seria seu comburente. Não haveria mistérios escancarados nem silêncios contidos. E o medo? O medo seria uma estrela a anos-luz da nossa casa. O amor? O amor, o nosso sol mais quente. Nossos filhos. Nossas plantas. Nossos cachorros. N…

Memória é peixe, palavra é rio

Imagem
Nota: Não venham me dizer que é uma crônica triste, pois eu choro de alegria.

"Que rostos mais coalhados, nossos rostos adolescentes em volta daquela mesa: o pai à cabeceira, o relógio de parede às suas costas, cada palavra sua ponderada pelo pêndulo, e nada naqueles tempos nos distraindo tanto como os sinos graves marcando as horas [...]".

_ Lavoura Arcaica, Raduan Nassar.



                Não gosto de sirenes, principalmente, se vierem acompanhadas de uma luz vermelha intermitente. E hoje no trânsito havia duas delas: o IML e uma ambulância. Um corpo na outra margem do rio e um corpo na ponte. Um corpo real e um quase corpo. O frio e a febre. Pois é... e o rio nem é tão largo assim.                 Isso me fez lembrar vovô, na madrugada de febre, da maca branca e das luzes vermelhas intermitentes. Eu estava no canto esquerdo do muro, encostada na parede e com muito frio. É o mesmo frio que sinto agora – a cidade está coberta de uma daquelas frentes frias vindas do Atlântico. …

Não há nada de novo

Imagem
Nota: Vinicius de Moraes dizia que "É preciso um bocado de tristeza para se fazer um samba com beleza". E essa crônica foi feita com um bocado de tristeza. Depois de tê-la escrito, comecei a ouvir Noturna (Silva e Marisa Monte). E essa música, por um instante, pareceu ter sido feita para essa crônica. É bom pra não pensar em nada, sabe?




                Não houve grito algum. O silêncio era possuidor dos sinais. O adeus era sinônimo de um até logo duvidoso e incomum. Nada mais seria como antes. Ela sabia. Quando você percebe que já tem um passado, quando toca uma música que já foi sua ou quando vê uma foto em que você já esteve presente, você assina seu eterno presente, intransponível e transpassado pelas pessoas e músicas futuras. A partir daí, todos os cálculos serão diferentes, apesar de ser possível obter um mesmo resultado; todos os encontros serão irregulares, mesmo com hora e local marcados, porque, ainda que as pessoas não sejam desconhecidas, mas também nada se pode …

Por um triz sol

Imagem
Nota: este texto começa como termina: sem nenhuma reverência ou comemoração. Até porque ciclos não possuem começos, nem finais. Apenas a velha repetição, disfarçada de algumas diferenças, mas com resultados parecidos. O que quero dizer é que não existe nenhum motivo para se comemorar o Dia Internacional da Mulher. Mulheres não possuem nenhum privilégio nesta sociedade. Seria a comemoração por estarem vivas ou apenas ter passado mais um dia sem serem estupradas? Opa! Elas são, né? Então não há motivo para comemorar. Fizeram este dia para nunca esquecer. Pelo visto sempre se esqueceram e mesmo hoje ainda fingem não ver, fingem não lembrar.


Caía uma chuva fria e fina, que adelgaçava as estruturas pelo toque, nas telhas da casa de uma família. Chuva final de inverno, trazida pelos peixes navegantes, já esperançosos pela cabeçada floral e morna do carneiro. A chuva assustou-se com o grito de Maria e se retirou. Assim que o primeiro raio luminoso apareceu entre as nuvens, ouviu-se um choro a…

Dreadnought, Virginias

Imagem
Nota: Para todas as minhas leitoras, um humilde texto e um beijo da Woolf.



                É difícil falar sobre Virginia Woolf. Eventualmente, nem Quentin Bell, sobrinho de Woolf, pudesse exprimir, mesmo com todas as informações que tinha a seu dispor, quem era Virginia. Talvez nem ela mesma soubesse. Woolf não era como um dicionário, simplificada, concisa e exata. Era mais como um caderno de poesia, manchado e encharcado por uma chuva torrencial de lágrimas.                 Se frígida, não importava! A quem afetava o “ela era”, se não a ela mesma? Toda aquela chuva de nuvem-Woolf, apesar de molhar tantos transeuntes, ocorria de suas entranhas, correndo para uma época em que tudo o que não era sol, não era considerado estrela. Mas quem limitaria um ano a uma única estação, se tantos eram os dias ensolarados?                 Sol e chuva? Chuva e sol? Virginia e Virginias. A consciência que presidia o fluxo de normalidade. A mulher que era de Bloomsbury e que era Bloom. A mulher? O lob…

Cedo, a noite vem

Imagem
Nota: Essa crônica eu escrevi pensando em cada um dos leitores que passam por esta página. Uma parte de mim também a recebeu.

                                      * * *

Acordar cedo, antes do alvorecer, também tem suas vantagens. Ver o Sol se esgueirando pelo horizonte, tímido e com sono, cobrindo os edifícios com seu calor, trás – ou quem sabe, leva – a sensação do eu-só. O eu desacompanhado de promessas, mas nutrido de planejamentos, chaves, carteiras e documentos.             Eu-pó diante de extensas avenidas, ainda vazias, com os semáforos a intercalar as cores. Vermelho. Em breve, a avenida desaparecerá por debaixo de pneus desgastados e o semáforo será apenas um artifício que, amarelado, distancia a liberdade dos eu's.             Até as calçadas, com seus meios-fios brancos, separam o vazio do silêncio, numa linha tênue entre os acasos e os bocejos. Ainda que agora, o tempo não exista na dimensão dos que dormem, em breve, a cidade acordará, acenderá as luzes e os edifícios da…

O que aconteceu?

Imagem
Nota: Nesse conto, todas as respostas para a pergunta título. A minha resposta é diferente da de cada pessoa que ler esse texto. As nossas perguntas também não são as mesmas. Nós não somos os mesmos. Mas nós estamos juntos. Feliz 2017!




_ E o rio é sempre o mesmo. É sempre o mesmo rio. A água é que é sempre diferente.
_ Porventura, o fato da água não ser a mesma, não faz diferente também o rio?
Quando olho para as águas passadas e me lembro das remadas que já dei, me lembro de você em todos os lugares, me fazendo questionar os peixes que consigo tocar. Não é sem motivos que tenho encontrado respostas para suas perguntas retóricas... Você sempre me leva até o fundo do rio, eu me afogo porque tenho medo e me esqueço de bater os braços, volto à superfície expirando água e você sorri para mim.
_ Mas as margens do rio são sempre as mesmas.
_ É só a água do rio que é diferente, não é mesmo?
Então, eu subo na nossa jangada de madeira, sentindo o pulmão pesado e o coração cansado. Olho para o céu e …