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Mostrando postagens de 2016

Eles discordarão de mim

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Nota: E o título dessa vez não é só um título. 'Talvez' seja a moral e todo o resumo da crônica. Obrigada!



A moça de cabelos descortinados dorme pouco. Amanhece durante, o dia todo, a sua forma bruta de viver. Ela fala muito, enquanto escreve sobre viagens multiuniversais, com uma faca de doze gumes na mão. Na mão? Doze? É que ela ensina – e muito bem – sobre o céu, mas ela não é uma professora. A moça ensina sobre o céu como um padre ensina sobre o inferno.
Não! Ela não é uma mulher ruim. Existem pessoas mais afogadas que ela, sob colunas d’água mais profundas. Nem podemos julgá-la, já que não se trata de um estado. Ela é e sempre se renova quando o sol completa seu giro. Ela é... grossa.
Grossa como a letra de uma jovem insegura que, apesar de possuir uma caligrafia limpa e redonda, consegue rasgar o papel, marcar as páginas e imprimir duplicidade. Mas repito: ela escreve. É, ela escreve...
Não obstante, não é preciso ter pena da moça! As penas, ela usa para cobrir os seios, sem…

Lábios escritores

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Nota: Essa crônica foi escrita pela manhã enquanto eu bebia um café bem amargo e ruim de uma padaria próxima ao meu local de destino. Eu havia chegado cedo demais. Meu local de destino estava fechado. Então, de alguma forma, aquele café amargo e ruim, me inspirou esse texto também amargo e ruim. É provável que eu não possua as mesmas convicções que tive no momento que o escrevia, é possível que eu não seja mais ele - não em totalidade - mas, no mínimo, eu fui ou tenho sido. Ou melhor, tenho sentido. Obrigada!



Quão escura está a minha alma, nos trâmites de mim mesma, em contraste com meu coração obsoleto? Quão velha é essa escuridão no arco da tangente que toca meus anos? Quão fechados estão meus lábios, se há muito, só procuro aquela paz – a mesma paz que os pássaros encontram quando voltam para casa, ou a mesma paz que os filhotes abraçam quando fogem de seus ninhos – oh, quão fechados estão? Quando o final está muito distante e os pés muito cansados, o corpo deve repousar sem pressa. …

À Benção

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Nota: Meu amigo Matheus Castilho precisava escrever. Ou será que nós é que precisávamos lê-lo?


Tocou as águas turmalinas do oceano o sêmen de um deus.  Quisera eu que este creme fosse de Chronos; Talvez o fosse, já que agonia e sangue desviaram-se à (T)erra. Imediatamente e irascivelmente Uma estrutura âmbar materializou-se. - Oh, deve ser uma beleza! Disseram as ninfas. Regozijaram-se em cânticos de boas novas. Várias bençãos costuraram àquele casulo. Mas já era tempo de nascer. Já era tempo de os olhos se abrirem. O que fazer se a concha não se quebrou sozinha? Eu não sou Boticelli ou Da Vinci.
Rachaduras apareciam anunciando a luz. A nova vida gritava, porque não conseguia sair. E nasceu. Nasceu uma fada divina. Perfeitas madeixas enrolaram-se em crina. Só que ao romper o rebento, rebentaram-lhe as asas. De que serve uma fada que não voa? As ninfas indagaram furiosas.
As bênçãos tornaram-se asco: - Nunca há de voar - Nunca há de falar, os sons não a querem - Nunca há de estudar - N…

Sobre um homem preocupado

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Nota: Conto inspirado por Matheus Castilho. Ele é o homem de quem eu falo. Vai ver, Rubel fala dele também.



                Em Brasília mora um homem preocupado, mas feliz. Preocupado com o tamanho das ondas do mar-futuro, sem notar que seu barco-presente já é muito resistente. Ele não é um homem qualquer e nunca conseguiu ser. A presença dele preenche e aquece aqueles que nele depositam sua fé-amizade. Ele é um homem tão distinto, que não existem adjetivos suficientes para descrevê-lo. Adjetivos precisam ser inventados.                 Neste homem mora um senhor velho e educado, um pouco carrancudo, mas sábio, que carrega sua alma com as mãos enrugadas. Mas dentro desse mesmo homem, um jovem feliz e poderoso, grande e muito forte, carrega em suas mãos o velho que carrega a alma. Alma insustentavelmente pesada, mas delicada como uma pena.                 Neste homem que mora no coração do Brasil, que também mora no coração de muitos outros homens, neste homem, resiste duas forças tota…

(En)Volta

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Nota: Poesia inspirada na teoria do filme Donnie Darko (Richard Kelly), na teoria dO Eterno Retorno de Nietzsche e no livro 'A insustentável leveza do ser' de Milan Kundera, apoiada à interpretação de Gary Jules de 'Mad World' (também presente na trilha sonora de Donnie Darko). Para quem ama esse filme como eu, recomendo a interpretação da turma do Pipocando [Clique Aqui].




De tempos em tempos, eu deixo artefatos para trás E eles se alojam no meu envelhecido caminho. Eles ficam pesados nas minhas costas. Quando eu for fazer o looping, Será que vou tropeçar?
De quando em quando, eu volto para recolhê-los Deixando cair alguma parte de mim no caminho. Eu fico cada vez mais pesada Depois que troco um pedaço de mim Por um artefato de um tempo qualquer.
Enquanto, todos esperam meu sorriso E tudo o que eu tenho para oferecer É um sorriso triste e eu sei Que este é o meu pior tempo E é o espaço que eu levarei para terminar.
Então, não me esperem no fim. Como também não me esper…

Ode à lembrança

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Nota: Sobre o motivo do meu sumiço. E isso é o máximo que posso falar ou o máximo que consigo. É o que eu tinha para dizer. Obrigada!



                O teto branco era o meu apogeu. Com as mãos ocupadas com as agulhas, era no teto branco e imaculado que eu conseguia escrever. Escrevia tanto de dia, quanto de noite. Escrevia porque sentia falta do Sol, das árvores secas e das pessoas apressadas que tropeçavam em mim. Sentia saudade das pessoas que amava, dos latidos dos meus cães, dos meus livros e da minha calculadora velha. Eu sentia falta de mim.                 Eu sentia meu corpo se afundando no mar profundo daquela maca. A maca era azul, rasa, infindável em sua dureza. Mas eu me afogava. Era muito líquido me inundando, me enchendo, aos poucos, como uma pia se enche com o pingar de uma torneira estragada. E como pia que se abarrota de água e começa a molhar o chão, eu também molhava. Molhava os olhos da minha família, das enfermeiras, dos amigos. Mas não molhava os meus.          …

Lampejo temporal

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Nota: Escrevi essa crônica depois de assistir "Questão de tempo" (About Time), um filme dirigido por Richard Curtis. Sobre o filme: é uma daquelas obras cândidas, mas, distintamente, deslumbrante por sua suavidade, universalidade e lirismo. Vejam e me digam o que acharam... Às vezes, precisamos de filmes assim para animar nossa emaranhada vida, não é? (texto não contém spoilers).
1) Quinto parágrafo - referência à crônica 'Rosas Silvestres' de Clarice Lispector, livro 'A Descoberta do Mundo'.


                Quão piegas é o tempo que nós construímos em cima de uma cascata de normalidades? Esse tempo fino como um filete de água que, aos poucos, vai diminuindo até parar de pingar, é o seu tempo de escolhas primordial? Quem entenderá essas perguntas, escritas sob a luz fluorescente do meu quarto, em uma noite nada comum e mordaz?                 Na verdade, estive pensando se se eu pudesse voltar no tempo, o que mudaria? Sim, agora todos podem entender as pergun…

Chuva torrencial de excrementos

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Nota: Ao meu Brasil Impeachmado. Se bem que eu não sei se é mais meu... Se é mais nosso...



"Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára"
_ Cazuza/Arnaldo Brandão
                A pressa de se chegar em casa, se fustiga com o cansaço. É final de tarde e o sol se põe sem a mesma pressa com que o tempo parece nos carregar até a velhice. Apesar de ainda haver luz solar, a lua começa a descortinar-se sozinha no encalço das nuvens. O bêbado vespertino diz que ela veio limpar o céu e também tem urgência, pois as estrelas não demoram para aparecer.                 E apesar de toda a demente urgência qu…

O homem que ouvia espelhos

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Nota: Não deveria dar essa dica. Será que dou? Ah, ok! Essa crônica já é muito simbolista. Somente uma dica não fará mal, não é? Escrevi para um amigo. E falando de dicionários, lente também é professor. E 2 perdidos com Catto se relaciona voluntariamente.



                De cima da torre, eu e o homem que ouvia espelhos gritávamos aos transeuntes que nunca poderiam nos ouvir. Nós falávamos de ciências, de política e sobre asneiras. Eu nos ouvia como uma explosão de ondas sem interferências e, ainda, achava que isso era possível – como se as várias ondas do meu seio não fossem desconstruir as ondas de sua voz. E o homem que ouvia espelhos continuava a gritar, sorrir e girar, procrastinando os outros, mas nunca a si mesmo.                 A torre testemunhava todo o desarmônico desencontro. O desencontro do meu espectro côncavo de mulher e do espectro convexo daquele homem. Eu devia ter acreditado na imagem crepuscular do homem que nasceu para espalhar e, ao invés de ter tentado reflet…

Laços de uma não-família

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Nota: Se por acaso, ao ler o título deste conto, você se lembrar de Laços de Família da divina Clarice Lispector, você estará certo - é essa a relação. O conto representa várias personas da sociedade com pitadas de pimenta. Pimenta-do-Reino.

"Quando Pedro me fala de Paulo, sei mais de Pedro do que de Paulo." - Sigmund Freud
                Dona Rita estava fazendo o jantar e, duvidosa se tinha posto sal e fastio nas batatas, encarava o pote de pimenta-do-reino. Marcela estava sentada no sofá com os livros no colo, mas assistia a um programa televisivo de disputa culinária. Seu Bruno estava dependurado na janela da sala, enquanto olhava o movimento da garagem do vizinho. Marcos, o filho menor, teclava com um grupo de amigos pelo celular.                 Apesar daquele silêncio descomunal entre os membros da família, a mente de todos fazia muito barulho. Marcos não conseguia aceitar a nota que recebeu do professor pelo trabalho sobre desigualdade de gêneros. O grupo todo estava …

Se o amor voasse

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Nota: Primeira crônica do ano. Primeira crônica depois de muito tempo. Quando aprendi a escrever crônicas, através de um grande professor - e que ele me perdoe, vou ter que citar seu nome - aprendi a fazê-las de forma banal. Marcos Baiano me ensinou a falar sobre banalidades alheias e sublimidades pessoais. Obrigada, meu professor! Quem me dera essa crônica ser digna de sua personalidade!



                Ontem encontrei um passarinho caído no chão. Ele tinha asas, mas não sabia como usá-las. Ele estava sozinho e encolhido ao lado do muro alto que cercava as goiabeiras. O sol estava quente, mas depois choveu. Choveu e fez sol. Porém o passarinho continuava lá, tentando descobrir se seu gazeio lhe traria algum tipo de socorro.                 Depois de alguns longos minutos, um pássaro forte e robusto apareceu voando, fazendo ronda nas goiabeiras. O pássaro adulto nutria belas asas e sabia fazer rasantes herméticos em volta das fiações de energia da esquina. Ele piava alto. Ele ansiava …

Penitência

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Nota: Esta é a primeira poesia que escrevo sobre o amor, sem estar amando. Sem estar amando alguém em específico. Porque amar é pagar "Penitência", mesmo quando não há amor.
Colaboração essencial do magnífico Matheus Castilho que a revisou como mestre e me apresentou a lindíssima música que se segue.




Que meretriz é essa que reza no teu altar? Que santo herético samba em teu seio? Tu podes responder todas as minhas perguntas Com teus argumentos heurísticos, que eu leio Em notas de jornal.
Quem te viu nu quando tu vestias tuas roupas?  Que banho é este que deixastes de tomar? Tu deves calar todas as minhas respostas e, Com teus silêncios, me desbancar O peito que habito.
Que beijo libertino tu deixastes livre em minha boca?  Que abraço teus olhos não conseguiram desatar?  Tu desatas todos os meus nós Com tuas chegadas, mas sabes desamarrar  Todo laço que oferto.
Que mala é esta na porta dos seus olhos?  Que falta é esta que ocultas em teu bolso? Tu sentirás o vazio que, Com a …