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Mostrando postagens de 2015

O meu crime e o meu castigo

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Nota: Este texto já foi publicado na Revista Benfazeja, mas nunca aqui no blog. Ele é um dos meus queridinhos. O amo como gosto de baratas. Abaixo, as metalinguagens descobertas em ordem de aparecimento:
1) A paixão segundo GH - Clarice Lispector.
2) A metamorfose - Franz Kafka.
3) Tristão e Isolda.
4) Os sofrimentos do jovem Werther - Goethe.
5) Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski.



     Ouvia um teco-teco estranho no quarto, enquanto eu podia contar quantas vezes a calha de água se enchia e despejava tudo em frente à janela do meu quarto, ou ainda, com quantos trovões se faz uma pequena tempestade de verão centro-brasileira. A chuva continuava sua moda, bem rebuscada, pelos solos ácidos do sertão. Eu teria dormido se, primeiro, não tivesse uma mente cantante e, segundo, o tal do teco-teco no meu quarto.
     Confesso que me demorei um pouco na minha cama cogitando a ideia de ser apenas um eco dos meus tambores mentais, mas em segundos comecei a checar por onde estariam as criaturas …

Copo Vazio (Céus-olhos!)

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Nota: Escrevi depois de quebrar um copo cheio de refrigerante. Acho que essa é a informação mais relevante que eu poderia dar. Boa leitura!






Saudade franca dos perdidos devaneios. Daquela época em que havia sono Entre as quatro paredes do meu seio. Hoje restam os copos que caem das minhas mãos.
Era boa a estação de se estar junto, Quando se doía perto, mas sã. Agora me ardem os cacos de vidros disjuntos Que se espalham sob os meus pés.
Então, olho para céus olhos e penso: Quanto tempo ainda haverá esse apartar? Se alguém separou a água do copo É porque tal ocorreu de se quebrar.
Queria entender todas as leituras-chuvas Que se dispõe em minha frente. Mas os céus olhos, oh Céus!, são feituras Que nunca haverão de se abrir.
Porque olhando cá de baixo Vejo todos os cacos que caíram das minhas mãos. Se eu quebrar outro copo-estrela, Também despedaçarei meu coração.
E enquanto molho meu rosto Sinto a sede, a minha boca, secar. Mas se eu quebrei o que era inteiro, Ah, os cacos devo limpar.

Al…

Sobre escrever

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Nota: O tema do fluxo (in)fixo, dessa vez, é um tema muito abordado por todos os escritores desse vasto mundo. Eu e Matheus pensamos em escrever sobre escrever também. E aqui estão, dois textos totalmente distintos em suas cargas emocionais e estrutura, mas unidos por um tema imaculado. E para vocês, queridos leitores, o que é escrever?


Um papel... Doce.
            Recentemente, gastei tempo dentro de um sebo. Levei algumas obras clássicas. Sebos são ótimos para isso. Os clássicos que ninguém mais quer que, muitas vezes, você não teve tempo de ler no colegial, são jogados a desventura das estantes ensebadas. Eu não sou muito rigorosa quando compro algum livro do sebo, em relação quando vou às livrarias convencionais. No primeiro, eles não precisam estar impecáveis e me é até agradável ver as marcas do tempo, os arranhados, as orelhas-de-burro, as anotações e até dedicatórias. Isso, quando a equipe dos sebos não dá uma restaurada geral. A verdade é que eu gosto do gosto amargo do tempo,…

Contramão

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Nota: Poesia simples, simples como eu. Pra ler em menos de um minuto e soltar os pássaros. Obrigada!



Disseram que eu nasci muito emudecida E que fui criada como barco à deriva. Narraram palavras que não foram pronunciadas Enquanto, anunciam minha morte pré-datada.
Mandaram-me segurar um bisturi Tendo recusado, jogaram-me ao júri. Condenaram- me pelas escolhas poéticas E pelos acasos engenhosos da ética.
Rasgaram meu papel querido Arrancaram o lápis de minha mão. Tentaram manter-me ferido Eu sempre vou pela contramão.
Se prendem meus pássaros no cativeiro O meu canto não irei poupar. De suas casas, eles ouvirão meu berreiro. Até meu peito esfriar.
O meu gazeio não é líquido Nem é vazio o meu cantar. Se eles soubessem por onde tenho ido, Haveriam de se calar!
E se dizem que muito tenho dito Voo-me. Eles muito não entendem, sinto. Só, sou-me.
E se assim tendo a ser, Sabiá me ensina a aprender. Se eles atiram palavras Nem todas comporão a minha safra.
Até me indicaram a complexidade, Mas eu almejo – ao menos nessa vez…

Tempografia

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Nota: este é o meu conto mais longo. Não pretendo esconder nada. Ele é simples e transparente. Aliás, todos já ficaram enovelados ao tempo. Que o recado seja dado. Leiam!



Eu sou Rua Brooklin, quadra 36, lote 7, Condomínio das Palmeiras, Bloco D, nono andar, apartamento 975, Cidade dos Funcionários, São Paulo, São Paulo, Brasil, CEP 78690-000. No último mês, eu recebi uma visita, doze correspondências – das quais eram dez cobranças e contas, um panfleto de inauguração de um restaurante e o outro eu perdi no elevador – dezesseis encomendas prontas de comida japonesa do Combo número 8 e quatro livros. Recebi R$ 5874,89 pelo trabalho e suas incontáveis formas de pretender dinheiro por mérito. Aliás, paguei minhas contas com alívio. Tive várias notificações e mensagens de diversos amigos nas redes sociais. Não as contei. Não as lembro. Não as senti. No começo dessa semana divinamente normal, amanheci com gripe. Dr. Felipe me disse que minha imunidade está baixa, resultado do estresse cotidia…

Inércia

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Nota: Esse texto era para ser um capítulo. Virou uma postagem. Engraçadinho, não acham!? É o meu tipo de humor, se é que posso chamá-lo assim. A personagem não sou eu, mas faz parte da nossa inércia de cada dia. Pensem!


   Hoje estou passando um pouco mal do estômago. Não! Mentira! Hoje estou passando muito mal do estômago. Bem-vindo ao mundo, suco gástrico.    Por algum motivo, a manhã me pareceu mais safada. Brilhava fogosamente sobre os meus olhos, rebolando onde não foi permitida a sua entrada. E esses raios do sol acordaram minha enxaqueca. Adeus, caneca de café.    Não obstante, isso não é um motivo tão ensurdecedor que me impeça de levantar. Ou é? Ai minha cabeça! Ai meu estômago! Ai que raio de sol!    Levanto. Levanto como folhas secas caídas no chão, quando o vento arrasta-as para uma terra longínqua. Como poeira espalmada dos móveis. Contra a lei da gravidade, gravemente, dolorida por uma gastrite, ligeiramente, nervosa. Isso passa!    _ Passa manteiga no pão! – foi o que d…

Nega maluca

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Nota: este texto não tem qualquer cunho racista. Somos todos humanos e nossa página luta por todas as causas sociais. Ele foi desenvolvido através de uma receita de bolo. Façam o de vocês e nos mandem a foto pelo face ou pelo Twitter. O meu está delicioso e o de vocês? Talvez faltasse mais vermelho. Obrigado.




     Hoje ela acordou doida. Pirada mesmo. Colocou seu avental branco e foi para a cozinha. Estava parada lembrando-se que a única beleza que o mundo lhe trouxe foi ser fera. Mas ela é forte. Louca, mas forte. Pratos, talheres, fogão, mesa e cadeiras. Alguns armários. Nunca soube o que havia dentro. Mas eram grandes e talvez cheios de nada. Só que tudo cheirava a chocolate. Chocolate bem preto mesmo. Carvão. Nem um pouco doce. Amargo como tudo deve ser. Deve mesmo ser tão amargo? A nega chegou à conclusão que deveria ser agridoce. Mas o chocolate não consegue ser outra coisa.      “Birds flying high, you know how I feel”, ouvia-se de longe. “Sun in the sky, you know how I feel”. É,…

Eu não tenho

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Nota: O "um baiano" - e que assim seja chamado, por enquanto - veio-nos como uma brisa e partiu-nos como um temporal. Na chegada, trouxe o frescor da grama umedecida e na partida, a desolação de uma cidade devastada. Há um tempo,esforçava-me a romper a camada limite entre a suspensão coloidal que há em meio peito e a vontade de escrever para/sobre "um baiano". Não consegui. No entanto, fui agraciada pelo voo rasante do meu amigo, Matheus Castilho, ao exprimir seus sentimentos à esse caranguejo da Bahia. Talvez, o nosso "um baiano" volte em forma de neve, de granizo ou seja uma chuva de verão. Oh, como ele gostava de água! E há quem acredite que ele voltará voando baixo por entre as rosas, borboleteando, em um ameno dia de sol. Porque, tudo o que temos a dizer à ele, eu e Matheus, é que estamos partidos.
Alline C. Frazão.

    “Não se pode ser feliz com o que não se pode ter”, disse-me uma vez um baiano. Não sei ao certo se esta frase é de sua própria autori…

As mãos da serpente

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Nota: Este conto foi escrito antes do último texto publicado "Peçonha", mas só agora venho publicá-lo. Temeis? Eu temeria!

“Nós somos ridículos, levianos, cheios de maus hábitos, sentimos tédio, não sabemos olhar, não sabemos compreender, ora, todos nós somos assim, nós todos, e tanto os senhores quanto eu, quanto eles. Porque os senhores não vão ficar ofendidos pelo fato de eu estar lhes dizendo isto na cara, dizendo que somos ridículos. E sendo assim, por acaso os senhores não são material? Sabem, a meu ver, ser ridículo é às vezes até bom, até melhor: é mais fácil perdoar uns aos outros, é mais fácil fazer as pazes; não se vai compreender tudo de uma vez, não se vai começar diretamente pela perfeição. Para atingir a perfeição é preciso primeiro não compreender muita coisa. E se compreendemos muito rapidamente vai ver que não compreendemos bem.”
— Dostoievski

                O chão estava cheio delas, serpenteando como se ouvissem algum ritmo latino, arrastando suas escamas …

Peçonha

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Nota: O sumiço desta que lhes escreve se deu exclusivamente por causa de um longo hiato. Neste período, estive me abastecendo de Tolstói, Dostoiévski e Hermann Hesse. Talvez, esses ilustres escritores e as minhas últimas leituras justifiquem o tema do poema a seguir. Um poema simples para recomeçar. E essa música sempre me lembra o tema. Então, prazer à todos, novamente! Eu sou Alline. Não diria uma nova, porque tenho estruturas velhas compondo novas coisas, mas outra figurante. Um primeiro hiato. Virão outros mais...




Da janela vejo o Sol embaçado Pelas nuvens tímidas que disfarçam, Os segredos contados aos ventos E que eles continuam procurando nos conventos.
Eles que despencaram das árvores, Bateram com as cabeças na grama, Vomitaram a si mesmos – progenitores Do vácuo de suas entranhas.
Procuram no percalço alheio, o encalço divino. E bebem cupidez como vinho. Excogitam-se com filósofos e santos, Enquanto serpentes protelam seus antros.
Vestem-se de sobretudos de lã, Aquecem o corp…