Sobre “a Menina que roubava Livros” - schreiben

Nota: Schreiben para os que necessitam. Amor! Ao meu querido MB. Inspirado com toda honra em A Menina que Roubava Livros de Markus Susak.




   Era manhã provavelmente das 8h às 9h30min. MB dava sua aula majestosamente. Ele era tão único que poucos podiam entendê-lo. Ele não ensinava a escrever. Ninguém tem esse poder. MB nos apresentava ao ato contraditório de tentar escrever. Eis um verbo belo: tentar.
    Por muito tempo, exatos 14 ou 15 anos, mantive tudo o que transcrevi inato em minhas amarelas gavetas ou expostos na escrivaninha. Muitos tinham conhecimento do que eu fazia, mas não exatamente como as palavras estavam dispostas. Desde os sete ou oito anos, me punha a escrever, a qualquer hora do dia e da noite, poesias ou mini textos. Mas foi MB que me fez lê-los em sala de aula. Foram três anos de convivência com o homem mais brilhante que conheci e, com certeza, ele discordaria de mim. É que MB chegava arrastando os pés no chão de giz, dando pequenas cavalgadas, colocando sua mochilinha encostada na mesa, dizendo algo como:
   _ Eu vou acabar com a carreira escolar de vocês. – meio sem fôlego.
   Até agora, tenho resistido a escrever sobre ele, já que nunca me achei digna de citar uma piscadela qualquer de MB. É que dessa vez é inevitável. Eu tenho que falar. Seria covarde se não me prostrasse diante desse papel, ajoelhada e lúdica, para alçar esse voo (por mais que não devesse). MB deixou minhas asas cortadas crescerem, com toda a paciência de um professor, mas com todo amor de sábio amigo. Portanto, estou voando em sua homenagem, sabendo que qualquer espetáculo que eu ousar fazer entre as nuvens, não chegará nem perto dos voos de MB.
   Tenho tantas, mas tantas, recordações de MB. É como se todas as suas aulas permanecessem gravadas em minha mente. Enquanto eu esquecia fórmulas matemáticas ou regras gramaticais, nunca apagava uma palavra que ele, se quer, deixou escapar de sua boca delgada. Não sei exatamente qual dia, qual instante e isso pouco importa. O que precisa ser imaginado é descrito a seguir.
   Ele deve ter entrado pela porta comumente arrastando os pés com tênis de tom azul. Teria dado um ‘bom dia’ vergonhoso e jogado o cabelo para trás. Vejo, na minha frente, na parede do meu quarto, ele endireitando seus óculos quadrados ou mexendo a cabeça. Ah! Como eu poderia descrever sua dança cerebral? Ele fazia que iria jogar os cabelos castanhos e levemente lisos, mas não havia muito cabelo para ser jogado. Geralmente, portava uma camiseta clara parcialmente cobrida por uma camisa de botão entreaberta. Grandes chances de ser xadrez e azul. E sua barba, (como pude me esquecer?), sua barba preta e espessa cobrindo a massa branca de seu rosto desconfiado e gentil.
   Contudo, pretendo guardar comigo a maioria das recordações. Às vezes, elas entram pelo meu quarto escuro e azul, sem bater na porta ou pedir licença. Elas esgueiram por minha escrivaninha, tocam meus instrumentos, sentam do meu lado e me pairam a me ver dormir. Então, eu sonho com cada momento que o tempo, em sua imponência, tirou das minhas mãos. Não é preciso dizer que as lembranças são belas. São rubras em sua predisposta altivez, porém intensamente frias. É que não gosto de calor. E nem de expor o que é único. É que quando penso em MB, sinto que há algo em mim que nunca poderá ser esquecido. E esse algo é ele. Por isso, prefiro guardar um punhado de memórias somente para mim, para acalento de minha história, para envelhecimento de minha destreza. MB faz parte de mim.
   Há, em exato, uma coisa que pretendo contar. O dia em que:
   - Você já leu ‘A Menina que roubava livros’? – dito com sua voz suave, mas imposta de forma aguda, como se ele sentisse o dragão que vivia em seu peito. Depois de me ouvir ler, do meu primeiro lugar da fileira do meio, mais uma proposta de texto que devia ter extrapolado melhor o tema ou abordado com mais afinco a coletânea, soltou essa lasca de pergunta. – Em? Alline? Você já leu ‘A Menina que roubava livros’? – fazendo-me corroer de vergonha.
   É que naquela época eu não tinha condições de comprar livros, tinha lido poucos, guardava poucas palavras entesouradas em mente. Mas eu sabia da minha ignorância e, em instante algum, negava que era uma aluna mais atrasada que os demais. Pelo contrário, eu gostava de me lembrar, o tempo todo, que eu sabia menos. Isso secava minha boca e me fazia procurar por mais conhecimento, por mais palavras (notem Liesel Meminger). Só que havia uma diferença em comparação com os outros casos de exclusão. Em poucos instantes, notei a mixórdia dos colegas de classe.

PENSAMENTOS QUE ME VIERAM:
1.       O livro parecia ser conhecido.
2.       Não poderia demonstrar minha estúpida fraqueza perante o homem que mais admirava em toda a vida.
3.       Ele não merecia ouvir: - Não! Eu nunca li esse livro.
   Então, menti:
   _ Li! – pigarreie – Li, sim! – e chego a imaginar minha face deslumbrada, com bochechas mais vermelhas que de costume. Eu roubei. Assim, eu roubei.
   _ Você me lembra dela. – e continuou, sem pestanejar, o meu silêncio e meio sorriso. Eu percebi que eu roubei... A certeza dele, a exatidão das palavras que voaram de sua boca, a recordação de um livro qualquer (talvez nem tanto louvado pelos críticos). Roubei meu MB.
    Finado aquele dia, me lembro de jurar a mim mesma, que leria o mais rápido possível. E então, eu roubei. Novamente, roubei. Assaltei essa verdade da minha consciência. Isso foi devido o fato do dinheiro não ter brotado da minha imensa vontade de comprar uma livraria. E porque eu nunca seria capaz de roubar um livro. Eu roubo coisas abstratas. Pelo menos essas, eu possuo coragem.
   Passaram-se alguns anos, acho que dois, e conheci Stéfany, minha colega universitária que teve a não sorte (não gosto da palavra ‘azar’) de pegar o papel com meu nome escrito, no dia do sorteio do nosso primeiro ‘Amiga secreta da Engenharia Química’ (somos um grupo de mulheres). Ela sabia, não me lembro de quando citei minha sede por esse livro, exatamente o que me dar. Pois é, assim ela se fez amiga. Deve ter sido um momento de distração, em que eu me encontrava olhando para o nada. Devo ter aberto meus lábios e soltado ao vento ‘A Menina que roubava Livros’ e entre aquele tanto de garotas falando sobre diversas coisas, Stéfany deu um pulo destemido e pegou minhas palavras.
    Eu li. Louca, curiosa, silenciosa, no entanto, com a imagem de MB dizendo: ‘Você me lembra Liesel Meminger!’. Na medida em que engolia as letras das páginas amareladas, pude me ver no espelho. MB tinha razão, como sempre. Só que havia diferenças fundamentais que também prefiro guardar segredo, pelo menos por enquanto. Adianto que não sou tão especial quanto Liesel. Não encantei MB como Liesel encantou Hans, Rosa, Rudy, Ilsa, Max e tantos outros personagens, como até a dona Morte. Eu fui a aluna normal, nada bonita, que fazia de tudo para encontrar suas palavras no mundo. Não saberia eu, que teria o mesmo fim de Liesel Meminger: escreveria em livros de capas escuras por aí.
    As nossas diferenças fundamentais são lógicas. Eu e Liesel somos de tempos distintos, contextos longínquos. E o clímax desse meu encontro é que Liesel só existe devido Markus Zusak. Eu, por vez, sou real. Para a alegria ou tristeza do mundo. Eu não preciso saudar assassinos e, mesmo nunca tendo dinheiro para comprar livros principalmente na época de MB, tive a graça de não passar fome. O que MB quis dizer é que eu tinha a mesma essência que Liesel, os mesmos sonhos, a mesma válvula de escape e a mesma oportunidade fugaz. Não é à toa que lhes digo isso agora. É por MB que criei esse blog e ele estará presente na dedicatória do meu primeiro livro se um dia ele vier a respirar.

    Quando MB entrou em minha vida, como fez com muitos alunos, não imaginaria que alcançaria dessa forma a aluna qualquer da primeira carteira da fila do meio da sala do fundo. Uma das belezas de MB é que ele parece desconfiar de sua própria beleza e esperteza. Ele não só me apresentou ao pote, como também me deu a garantia que esse pote sempre estaria cheio de mel. MB escreveu Alline Frazão como Markus Zusak escreveu Liesel Meminger. E MB estará presente até no meu epitáfio.
   Lembro-me das longas viagens, dentro desse transporte público infeliz, que fazia do colégio à minha casa. Não importava se saísse 21h e chegasse a casa por volta das 23h40min. Eu estava feliz, coberta de lassitude, mas tomada de felicidade. Eram as aulas de MB. Meus pais sabiam, em exato, quando havia tido aula de redação. Os olhos condenam grande parte dos nossos sonhos. Ainda bem que a maioria das pessoas não presta atenção. Mas como eu sou fardada a abrir meu coração para as flores do canteiro do jardim, era inevitável fugir do inexato prazer de ver MB lecionar.
   Só tenho mais uma coisa a contar. Quando percebi que estava nas últimas páginas desse livro maravilhoso (porque o valor que ele tem pra mim, nenhum crítico literário pode tirar), senti nascerem no cume de minha alma, as salgadas lágrimas que entreguei ao mar da minha saudação. Quis guardar esse momento para mim. Sabia que minha mãe não gostaria de me ver chorando, por causa de n motivos e remédios afins. Levantei da mesa e trouxe o celular comigo (já que sempre leio ouvindo música). Deitei na cama, mas pensei que ela poderia vir até mim e me roubar a beleza daquelas últimas páginas. Fui ao banheiro. E isso é até cômico. Escutem! Tranquei a porta, abaixei a tampa da privada. Programei meu celular para tocar Wlofgang Amadeus Mozart, a conhecida canção dos funerais noveleiros, e respirei. Preparei uma boa frase de: ‘Mãe, eu estou ocupada. ’. E terminei de engolir o livro. Como de costume, chorei. E isso é apenas uma alíquota. Naquele momento, senti vontade de abraçar Stéfany, parabenizar Markus Zusak. Mas o que fiz foi lembrar de MB, de suas palavras, de sua alma voadora. E foi naquela pequena fração de segundos que devolvi a certeza que roubei de MB.
       _ Li! – chorei – Li, sim! – e chego a imaginar minha face feliz, com bochechas mais vermelhas que de costume, agora por causa das lágrimas. Eu roubei. Sim, eu roubei. – Mas lhe dou o que é seu: os direitos autorais de grande parte da Alline que se formou, da ‘mulher’ e da ‘dona Maria’, como você costumava me chamar. MB. MB.
    E nas paredes pude ver MB se aproximar arrastando os pés, cansado e corroído com o estrago que fiz. Como Ilsa Hermann ao me dizer:
   _ “Não se castigue – a menina (o) ouvir dizer outra vez. Mas haveria castigo e sofrimento, e haveria também felicidade. Em escrever.”.

A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS
Uma pequena história
De
Alline Frazão

   Lavei o rosto. A palavra flanava pelos cômodos: schreiben.

UMA ÚLTIMA NOTA DE SUA NARRADORA
Os seres humanos me encantam.
Às vezes.
Obrigada.



Alline Corrêa Frazão – 23/02/14 às 23h27min.

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