O voo da sabiá (a)

Nota: Este texto foi escrito para todas aquelas que se tornaram mulheres. Para todas aquelas que carregam o peso, mas ao mesmo tempo a leveza, de ser mulher. Em outras palavras: para todas as minhas queridas! - Matheus Castilho.
Adélia Prado - 13/12/1935 - atual.

Chimamanda Adichie -15/09/1977 - atual.
Hilda Hilst - 21/04/1930 - 04/02/2004.
 
Virgínia Woolf - 25/01/1882 - 28/03/1941.
















  Eu sempre tive uma relação um tanto distinta e especial com as mulheres. Vocês poderão até dizer que é porque sou homem e tudo mais. Mas eu lhes afirmo que não falo somente de desejo sexual. Falo sobre uma conexão de almas que não sei bem explicar de onde veio. Por motivos desconhecidos ou até mesmo pouco importantes, as mulheres sempre me fascinaram pelo simples fato de serem MULHERES.

 

Lygia Fagundes Telles - 19/04/1923 - atua
   Talvez essa relação tenha começado desde o nascimento, já com minha mãe. Mas o que posso afirmar com toda a certeza é que sou uma pessoa muito observadora. E eu sempre observei as coisas que me cercam. E como pauta frequente de minha análise, as mulheres que me rodeavam ou até mesmo aquelas que eu só via através da mídia, fascinavam-me ou decepcionavam-me no cotidiano. 
   Lembro-me de observar minhas avós. Ambas muito diferentes uma da outra, mas com algo em comum: marcadas pelo tempo. Jorge Luis Borges disse uma vez, em um de seus maravilhosos ensaios, que ele mesmo era o tigre que se devorava; o fogo que se autoconsumia. Claro que é verdade! Mas no caso de minhas avós o que jogaram-nas contra o vento e as atingiu foi outra coisa. Foi o machismo nosso de cada dia. Não sei dizer ao certo se alguma delas foi maltratada fisicamente por algum homem. Mas verbalmente, isso, minhas lindas leitoras, com certeza sim. 
Clarice Lispector - 10/12/1920 - 09/12/1977.
   Minha avó materna sempre foi livre. Separou-se cedo do marido em uma época em que a mulher só deveria dizer sim ao seu suserano cruel. Nunca quis se adequar a padrões sociais impostos, embora hoje, talvez o tempo a tenha feito mudar de ideia. E é exatamente por não se importar com opiniões alheias é que ela foi ridicularizada durante sua juventude na cidade em que mora até hoje. Lugar onde as folhas das árvores têm preguiça de descer ao solo. Humilhação sem perdão? Liberdade com cadeado manipulado por chave própria. 
   Minha avó paterna sempre foi controlada pelo marido, pelo resto da família e pela sociedade. Não a julgo, nem a culpo. Casou-se com um homem por influências externas. Casou-se sem amor. E com dor ou até mesmo conformada levou seu conveniente matrimônio até o fim dos dias de meu avô. Ciúmes. Álcool. Desilusões. Sonhos perdidos. Alma de cigana, vida de serva. Foram o que acompanharam a vida dela junto com meu avô etílico. Não cabe a mim dizer quem é bom ou ruim. Muito menos o que é correto. Só tenho na lembrança uma música que ela gostava de cantar para todos os netos. Talvez só eu tenha percebido que era como se fosse um grito desesperado de socorro inconsciente. Ela cantava (ou será que murmurava) para mim em minha inocente infância:
Marina Colasanti - 26/09/1937 - atual.

- "Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,
Voou, voou, voou, voou
E a menina que gostava tanto do bichinho,
Chorou, chorou, chorou, chorou

Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,
Voou, voou, voou, voou
E a menina que gostava tanto do bichinho
Chorou, chorou, chorou, chorou

Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,
Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,
Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho

Simone de Beauvoir - 09/01/1908 - 14/04/1986.
Sabiá que saudade...
Volte logo pra cá.
Sabiá que saudade...
Quero ouvir teu cantar.

Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,
Voou, voou, voou, voou
E a menina que gostava tanto do bichinho
Chorou, chorou, chorou, chorou

Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,
Voou, voou, voou, voou
E a menina que gostava tanto do bichinho
Chorou, chorou, chorou, chorou

Nina Simone - 21/02/1933 - 21/04/2003.
Frida Kahlo - 06/07/1907 - 13/07/1954.
Sabiá fugiu do terreiro,
Foi cantar no abacateiro
E a menina pôs-se a cantar
Vem cá, sabiá, vem cá

A menina diz soluçando,
Sabiá estou te esperando,
Sabiá responde de lá,
Não chore que eu vou voltar...

Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho,
Sabiá lá na gaiola fez um buraquinho, 
Sabiá lá na gaiola fez um [buraquinho...

                                                         Sabiá que saudade... 
 Volte logo pra cá.    
 Sabiá que saudade...
       Quero ouvir teu cantar".

Maya Angelou - 04/04/1928 - atual.
   O sabiá está preso na gaiola. Os outros o ouvem cantar. Eu o ouço falar em uma língua tão doce! Mas tão triste também. Tão melancólica. Eu vejo cachoeiras escorrendo de seus olhos brilhantes. Jabuticabas maduras depois da floração. Grito elegante de socorro. Eu pego uma pedra. Quebro o cadeado. Abro a portinhola e ele sai. Macho ou fêmea? Acho que fêmea. Mais do que isso: feminina. E o sabiá que sabia do seu destino voa para o quintal. Canta no abacateiro, na laranjeira, na mangueira. E a menina chora inconformada com a instabilidade dos novos tempos. Com as mudanças que vêm e permanecem. É, minha flor! Acostume-se. Porque o sabiá que voa sabe que não retornará. Não quer retornar. Pelo menos, espero que não.
Elisa Lucinda - 02/02/1958 - atual.

   - Liberdade, Liberdade, abre as asas sobre nós...!
   - Abri, filhas. - Respondeu a Liberdade.

   Elas crescem. Amadurecem. Cozinham feijão roxinho, mas cantam. Cantam com a esperança que se aproxima. Não pedem mais licença para existir. Simplesmente existem. Simplesmente são. O quê? Vocês sabem.


Tarsila do Amaral - 01/09/1886 - 17/01/1973.

Texto por Matheus Castilho Corrêa – 08/03/2014. 

Carolina Maria de Jesus - 14/03/1914 - 13/02/1977.













Nota em resposta ao texto de Matheus: É com honra que tenho o prazer de publicar esse maravilhoso texto do meu amigo. Escolhemos, dentre muitas, essas mulheres por motivos pessoais. São mulheres que tiveram vidas carregadas de espinhos, mas colheram as rosas do jardim sem reclamar por seus dedos cortados, sem esconder as marcas arranhadas de suas sabedorias. E elas saíram da gaiola, vencendo os ventos tempestivos de suas épocas, de suas sociedades, de nossas falácias. Essas mulheres que me inspiraram e que inspiram homens por seus talentos, e que representam as mulheres, que escondidas pela fumaça de 7 bilhões de habitantes, reinam em nossos lares, no mercado de trabalho, na criação dos filhos, na inovação, no amor. E é em homenagem a essa mulheres, únicas e livres, mesmo quando acorrentadas, como a vozinha de Matt, que publicamos esse simples post. E é claro, queridas leitoras, que nos acompanham nesse caminho inconstante da escrita e dos sentimentos racionalizados. E faço minhas, as palavras do Cast. Vocês sabem o que vocês são. Ou melhor, nós sabemos. Obrigada! Feliz dia Internacional da MULHER! - Alline Corrêa Frazão.


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