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Mostrando postagens de 2014

Para o ano que passou

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Nota: Ano passado ou ano retrasado - vai depender de quando vocês lerem essa publicação - eu postei uma crônica. Desta vez, ofereço uma simples e humilde poesia. Talvez porque só a poesia tem poder de tampar as feridas assim, com tão poucas palavras. Aliás, eu já escrevi muito nesse ano e vocês bateram recordes de leituras (OBRIGADA). É uma poesia simples, mas tão simples, que me passa até vergonha. Por que vergonha? Eu sou assim, simples como uma formiga que carrega o peso da sua folha até o seu formigueiro. Acompanham-me? Prazer! Esse é/será nosso 2015.



Do ano que passou
Eu tive o tempo que voou,
O amor que não pousou e - esforçadamente - tive
A vida que anualmente o tempo tomou, mas o amor trouxe de volta.

Pra casa, trouxe uma muleta inutilizável
Que tentou acalentar um pé torcido
Mas amassou as mãos esticadas, amável!
Das quinquilharias que a vida põe em nossas bagagens no dia do bem vindo.

Chegar e encontrar o veludo daquela voz
Será a partida para a terra da noz.
Mas a partida n…

Três consoantes e três vogais

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Nota: Temos três referências no texto, citadas abaixo, para o caso do leitor não ter lido os livros. Além disso, quando já tinha começado o texto, apareceu-me esta citação de Nietzsche. O quadro de William Mouat Loudan foi um complemento encontrado com euforia. Um bom banquete à todos!
          1. O Banquete, Platão. Segundo, quinto e sexto parágrafos.
          2. Demian, Hermann Hesse. Décimo primeiro parágrafo.
          3. Água Viva, Clarice Lispector. Segundo e décimo terceiro parágrafos.


            “Eu sou vários. Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que …

A mancha de açafrão

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Nota: Antigo. Passivo de esquecimento. Ah! Vou deixar ele entrar para minha história. Por que não? Segue-se um conto fantástico tecido pela espinha.



   O cômputo estava errado. Aqueles números jogados na escrivaninha logravam-na. O escritório em silêncio deixava escapar um eco nas paredes azuis de suspiro intenso e sobrecarregado. Desanimada, apoiou o pulso na fronte e retirou os sapatos pretos esticando os pés. Respirou por um longo momento. Levantou a cabeça introspectivamente e desligou o computador (que respirava como um dragão resfriado). Com um movimento ágil, girou a cadeira e se pôs de pé. Corpo erguido, sôfrego, mãos paradas, olhos cabisbaixos, disse para si mesma:    _ Talvez o cômputo errado aqui seja você, querida. Será que você não percebe que não tem nem a pergunta? Que dirá uma resposta. Vá para seu quarto, tome um banho frio, deixe os números descansarem.     Saiu para a sala, subiu as escadas, entrou no quarto e retirou suas roupas. Agora, a água caía em seu corpo e esco…

A pintura

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Nota: É um conto antigo e um retrocesso pessoal - ria-se - mas eu gosto muito dele. A pintura de uma mulher que se descobre... Não digo mais nada! Estarei disponível para esclarecer aos leitores interessados por qualquer meio de contato disponível na página do blog. Bendigo aos leitores, a inspiração na pintura.


   Um grito rompeu o horizonte e foi exatamente nessa ordem cronológica. A alva face resplandecia um agouro soluço. De maneira boçal, ela começou a ópera.    O mundo mortal girava, transladava em elipses faceiras e tristonhas. A rua suja de lua corria como a chuva quando cai escorrida dos telhados. Apenas olhou lá fora, viu pessoas correndo na chuva e pequenas gotas correndo na vidraça azul. A cortina sofria ações de um vento ocidental, frio e selado. Eram quatro paredes pintadas de alguma cor não descoberta. Ela se levantou e se pintou descobertamente sem se importar com o olhar bisbilhoteiro do vento.    Sentando, já pintada, na cama escorreu-se pelos telhados sinápticos e chor…

Sobre esperançar

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Nota: Desejem-me muita temperança. Irei comprar novos balões. Obrigada, leitores!




                Há, nesses tempos inconstantes, uma separação silábica interessante. O ho-mem hirto e a mu-lher escorre. E-le, adjetivo. E-la, verbo. Todos, sem exceção, estão fazendo hematoses.                 Quando eu era criança, acreditava mesmo na história do Pithos de Pandora. Chegava a imaginar a pobrezinha da esperança presa na caixa, tentando sair, mirradinha e exaurida, definhando por causa de um varão qualquer. Hoje, flano descalça pelo meu quarto, ouço uma boa música e danço um pouco zonza e coberta por meu vestido rasgado – insubstituível por qualquer peça da moda – e penso que a esperança é um balão de ar, daqueles de festas infantis. E acho que essa ideia está para mim como o helenismo está para a Grécia.                 Enquanto o heliotropismo é para todos, alguns se escondem nas penumbras. Gostam de viver no escuro como morcegos, com as cortinas fechadas como se temessem um ataque de a…

Sobre o eterno retorno e algo mais

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Nota: Influencia advinda do meu lar, da Insustentável Leveza do Ser, de Nouvelle Vague. Com a honra de ser revisada por Patrícia Pinheiro. Sim, senhoras e senhores! Que honra!



                Lembro-me de um tempo, longínquo, mas saboroso aos lábios, tempos de meninice. Desde aquela época, minha casa sempre esteve em reforma. Nunca, em hipótese alguma, houve um mês em que a casa esteve terminada. Havia sempre - e ainda há algo que deve ser arrumado- algo pingando, algo caindo ou despencando. É engraçado pensar em como o inacabado sempre fez parte da minha vida e em como eu vivi em um ambiente de constante mudança o tempo todo. Assim, tão perto de um tanto que possa ser chamado de meu.                 Contudo, aquele cabo elétrico dependurado no teto por causa da lâmpada que não acendia na sala de estar, no mês de inverno, nunca nos impediu de comermos juntos, todas as noites, quando papai chegava cansado do serviço e mamãe fazia uma jantinha depois de um dia, também cansativo, de dona…

Có(cegas)

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Nota: Dos vários recortes de minha alma, alguém me inspirou um recorte maior. E este é o homem que só faz cócegas quando quer. Logo em mim, có-pessoa que pode mudar a muda do lugar. Ainda espero. Ainda.



                A muda foi plantada em um vaso pequeno e redondo. Todos os dias a senhora regava o vaso seco. Todos os dias ela gerava um vaso morto. Até que a muda fitou viuvez.                 A fanha comprava farinha pela manhã. Lavava a fronha do travesseiro, porque molhava toda noite. E o travesseiro florescia, crescia. De noite, ia se secar na cozinha, mexer com a farinha, fanar sua dor.                 Todo mês ele plantava bananeira. Chovia penca no quintal. Que pena que a penca despencava toda vez que o vento soprava. De dúbias ideias, comia banana nanica. Considerava-se um ba(na)nal.                 Toda sexta a cega comprava acelgas. Enchia sua sexta e ficava apaixonada. De todas as folhas que encontrava em seu peito, essa era a mais sadia. Do céu pendia a sexta cega do dia. …

Sol de bolso

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Nota: Nesta noite de primavera central no Cerrado, veio-me à mente a ânsia do que é sentir o nada trazer a pessoa amada. As memórias se resgatam e nos enchem de alegria fantasiosa. Isso está me lembrando o verão quente e seco de Aix-en-Provence. Façam proveito. Tenham na mente um homem de camiseta, bermuda e chinelos caminhando em direção à praia de água azul-turquesa do Mediterrâneo. Ao fundo há uma grande montanha e ao redor extensos campos de lavanda. Obrigado!


“Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma…

Enquanto... os telhados voam

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Nota: Só não desistam do amor. Só não temam dizer que amam, mesmo que não sejam correspondidos. O amanhã é imprevisível. Os pássaros que ouvimos cantar hoje não serão os mesmos de amanhã.

               Provavelmente, ambos entraram no automóvel, animados com a viagem, planejando as visitas aos parentes mais próximos, que há meses, não se viam. Trocaram-se beijos e carícias antes de ir e alguns sorrisos. Ansiava ver o cunhado doente, fazer algo por ele, dar um abraço. Ela queria comer o bolo da irmã mais velha de seu esposo e conversar um pouco com a irmã mais nova. Eles que dirigiram por alguns quilômetros. Bateram. Perderam. Sangraram. Ela que se foi. Ele que se partiu. Ele que ainda não sabe que ela não está. Não está. Não está aqui.                 Nesse exato momento, esta que lhes escreve saía do hospital, lacônica e exausta. Havia, e ainda há alguns hematomas na minha mão esquerda devido ao soro, as injeções e os remédios. Meus cabelos enrolados davam voltas em meu pescoço e m…

O (guarda)napo

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Nota: Só para esclarecer. Isso não é fraqueza. Insustentável seria fingir ser algo que não sou. Sem vergonha e sem ressentimentos. Toda forma de amor, mesmo que dor, é bonita. Mas algum guardanapo deixou de guardar algo. Só para crescer. Isso não é...




Desperdício

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Nota: Escrevi esse conto há alguns dias, mas só hoje decidi publicar. É hora de tirá-lo da gaveta. Antes que fique tão amarelado e que não seja possível lê-lo. Antes que eu o desperdice. Antes que eu me desperdice. Assim...